DIVÃ NO BOTECO – XXX

— Doutor, tô ouvindo umas vozes muito loucas.

Soltei a bomba logo de cara, assim, sem nem pedir licença. Vi os olhos do psicanalista arregalarem um tantinho, aquele susto bem contido de quem já ouviu muita maluquice, mas talvez não esperasse essa. Antes que ele começasse com aquele olhar de “vamos investigar esse quadro clínico”, completei:

— Mas são vozes reais, juro! Escuta aqui comigo essa conversa esquisita!

No deck do “Fale Mais Sobre Isso”, bar lotado de cerveja e psicanálise de boteco, tinha uma mesa com uns turistas. Fala estranha. Juro, não sabia se era árabe, hebraico, Klingon ou idioma de série da Netflix. Roupa comum, saída de free shop. As mulheres usavam lenços na cabeça — podia ser estilo, cultura ou só proteção contra o cheiro da fritura de jiló. Juvenal, o garçom/detetive, saiu na hora pra investigar a procedência dos forasteiros. Missão de paz em plena sexta.

— Doutor, sério… não tô pirando — insisti. — Mas se eu tivesse, queria uma alucinação classe A. Tipo a do Trump.

O doutor se ajeitou na cadeira de vime com ares de quem pensa: “Lá vem bomba…”.

— O Trump vive num mundo dele. Tipo reality show sem roteiro. A diretora de inteligência dos EUA — Tulsi Gabbard, nome bonito — diz: “O Irã não tá fazendo bomba nuclear”. E o que o Trump faz? Grita: “Tá errada!”. Pronto. Ele cancela a realidade como quem deleta e-mail. Se a verdade não combina com o figurino dele, ele inventa outra.

Fiz pausa dramática, dei gole no chope, e continuei:

— É a mesma cabeça que disse que teve a maior posse presidencial da história, mesmo com foto mostrando só uns gatos pingados. E a COVID? “Uma gripezinha”. Milhões de mortos depois… Ele é tipo roteirista e personagem da própria série de delírios. Um “streaming” de alucinações!

Silêncio. Barulho de copos. Uma gargalhada vinda da mesa dos fundos. Juvenal cruzando o salão com um bolinho de bacalhau. O doutor só balançou a cabeça, como quem já ouviu coisa pior, mas curtiu o enredo.

— Mas se o Trump é a Marvel dos delírios, o Bolsonaro é tipo a versão pirata vendida na 25 de Março! — disparei. — Também viu COVID como gripezinha, também negou ciência, também apostou em cloroquina como quem joga na Mega-Sena. E depois, veio com esse papo de fraude nas urnas. Nenhuma prova, só fé cega. Resultado: os seguidores dele invadindo Brasília achando que estavam salvando a pátria. Era rave de patriota misturada com surto coletivo!

Respirei fundo, mas já tava embalado.

— E o Magno Malta, doutor? Esse é outro nível. Ele olha pro conflito em Israel como se fosse um trailer do Apocalipse. Pra ele, cada bomba é sinal divino. Netanyahu virou personagem da Bíblia. Ele não vê política, vê versículo! É alucinação escatológica! Se amanhã uma pomba passar voando, ele vê o Espírito Santo mandando recado!

O doutor pegou seu bloquinho — aquele famoso onde ninguém sabe o que ele escreve — e rabiscou algo. Sobrancelha arqueada. Sinal verde pra continuar.

— Até o Netanyahu se convenceu que venceu o Irã! Disse que derrubaram o programa nuclear deles, que foi vitória histórica! Só que a CIA e a inteligência americana juram que o Irã nem tava construindo bomba nenhuma! É a vitória do que não aconteceu! Alucinação premiada com medalha e tudo!

Juvenal, finalmente, voltou da missão espiã.

— Doutor, descobri! Eles são da Chechênia. E pior: não bebem vodca!

— Como é que você entendeu isso? — perguntei.

— Mímica, inglês de rodoviária e tradutor de celular. Mas o app parecia mais perdido que cego em tiroteio. Não entendeu nem o que eles queriam comer!

— Tá vendo, doutor? Nem os aplicativos escapam! Até as máquinas estão alucinando!

Apoiei os cotovelos na mesa e fui no tom confessional:

— Lembra do Tay? A IA da Microsoft que durou um dia? Entrou na internet, viu o que tinha por lá e, em horas, virou um monstro xenofóbico e conspiracionista. Prova de que se a gente deixar a IA aprender sozinha nas redes sociais, ela vira a caricatura do pior da humanidade. Tem que ter filtro, doutor! Curadoria! Um editor mental, tipo um super-ego digital!

— Imagine se o algoritmo aprende com os papos do Trump e do Bolsonaro! Seria o apocalipse dos dados! Sim, porque os dois produzem um diálogo de soma zero. Pior, negativo! Pois não acrescentam aprendizado. Não se trata da ingênua burrice natural. É uma ignorância proposital para criar o caos e o domínio dos zumbis.

O doutor, que tava até então meio filósofo zen, sorriu. Anotou mais alguma coisa no bloquinho e soltou a frase:

A alucinação é um sintoma. A negação, uma escolha.

Eu olhei pra ele, pro copo, pro céu meio rosado daquele fim de tarde tropical e só consegui pensar:

— Se essa realidade foi a gente que criou, doutor… Então, a gente não tá só alucinado, a gente tá é com um problema sério de designer!


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