DIVÃ NO BOTECO – XXXIX

Cheguei ao “Fale Mais Sobre Isso” suando frio. Não era ressaca nem calor — era pânico político misturado com crise existencial. Fui direto pra minha mesa habitual, onde o doutor, como sempre, já me aguardava com seu bloquinho e sua expressão de “me surpreenda”. Antes que eu pudesse sentar, gritei:

— Juvenal, manda uma manjubinha e um chope gelado. E traz um saquinho de papel também, caso eu precise hiperventilar. A Jovem Pan me atacou hoje, doutor.

Ele arqueou a sobrancelha.

— Não, não foi um ataque direto, foi via ondas sonoras mesmo. Cada vez que ligam o microfone naquela emissora, parece que um arauto do apocalipse anuncia o fim do Brasil. E o Trump, aquele Netuno de terno mal cortado e tridente flamejante, surge nos meus pesadelos com a barba vermelha da cor do inferno e um sorriso de quem vendeu a alma no balcão da 25 de Março.

— A do centro de São Paulo ou a Chinatown de Nova Iorque? — provocou Juvenal, entregando a manjubinha.

— Ambas, Juvenal. A diferença é que na 25 ainda tem vendedor que aceita Pix. Já na Chinatown, tem que pagar a taxa do cartão do Master ou do Visa. Aliás, a CBF devia investigar todas as Chinatowns nos EUA e descobrir a origem das camisetas falsificadas da seleção brasileira com o número 22 nas costas, que abastecem os golpistas expatriados — inclusive o próprio Bananinha, completamente fora de controle, babando no carrossel da Disney enquanto posta vídeo de acampamento militar imaginário.

O doutor não riu. Mas eu segui.

— Ouvir a Jovem Pan é como dormir com a trombeta do apocalipse debaixo do travesseiro. E o Trump, doutor… O Trump é uma anomalia. Um caso clínico. É como se Freud tivesse desistido no meio do diagnóstico. Grandioso, ressentido, paranoico e… infantil. É o Nero dos tempos do fast-food. Vive de aplauso comprado, tem pavor de crítica, quer ser artista, herói, mártir e imperador — tudo ao mesmo tempo.

E, enquanto o doutor ajustava os óculos, eu completei:

— E, doutor, você acha que é só ele?

— Claro que não. É uma tríade. Trump, Bolsonaro e Bananinha. São como três versões de um mesmo espelho rachado. Se encontram na esquina do narcisismo patológico, mas nenhum consegue escutar o outro — só surtam em uníssono. É a patologia da vaidade em looping. O Jair, por exemplo, destemperado, dando entrevista com medo da prisão e do próprio Trump. O Eduardo, traindo o Brasil como se fosse um personagem em busca de aprovação paterna. E o Trump, que acha que a Casa Branca ainda é dele, atacando o Pix como se fosse uma ameaça pessoal à sua virilidade geopolítica.

— Interessante… — murmurou o doutor.

E eu completei:

— É narcisismo patológico, sem dúvida. Defesa contra o vazio, talvez enraizado em amor condicional e promessas messiânicas infantis. Muita negação, muita projeção, e uma onipotência que beira o delírio místico.

Juvenal, que ouvia enquanto ajeitava os copos na estante, soltou:

— E pensar que esses surtados acham que a ameaça de bomba do senador Flávio Bolsonaro é maior que a ameaça dos “kids pretos”. No meu tempo, “Kids Pretos” eram os “Keds Pretos”, o nome de um tênis vagabundo da feira, primo pobre do Kichute.

— Pois agora é código de guerra de adolescente de classe média que joga Call of Duty e faz cosplay de intervenção militar no Telegram. Quase conseguiram arrastar o Exército pro delírio coletivo da minuta golpista.

— Pior que isso, só o Trump atacando o Pix — emendei. — O Pix é o golpe de mestre do Brasil. Uma revolução silenciosa. Conecta a senhora que vende lingerie na 25 de Março ao hacker russo que compra camiseta da CBF falsificada na Chinatown. É democrático e rápido. O Swift, aquele sistema bancário imperial, é velho, punitivo, serve só pra castigar país que não obedece ao Trump. O Pix, não. O Pix é o Zap da revolução monetária!

Parei um segundo, peguei o chope, respirei fundo.

— E, agora, doutor, tenho medo de usar o Pix e não funcionar. Medo de ver o sistema travar, igual aos surtos dessa trindade narcisista. Medo de que tirem meu dinheiro, minha sanidade, ou os dois ao mesmo tempo.

O doutor, que até então só rabiscava, ergueu os olhos pela primeira vez na noite, olhou-me com a tranquilidade de quem vive sob ataque aéreo de ideias ruins e, com um leve sorriso sarcástico, disse:

— A paranoia, meu caro, é só uma tentativa desesperada de organizar o caos.

Levantei o copo.

— Brindemos, então. Porque, enquanto houver Pix, haverá chope gelado e manjubinha crocante. 


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