DIVÃ NO BOTECO – XLII
Cheguei no Fale Mais Sobre Isso com o fígado fervendo. Sabe quando você acorda com a sensação de que o mundo está de cabeça pra baixo, e ainda assim tem gente querendo virar mais? Pois é. O Doutor já estava lá, como sempre, com seu chope claro e o bloquinho aberto no colo, rabiscando como quem traduzisse delírios coletivos direto para o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
— Doutor, me perdoe, mas hoje eu vim fervendo mais do que chaleira esquecida no fogão. A coisa é séria. Eu juro que não queria, mas fui obrigado a concordar com o Merval Pereira. Sim, ele mesmo. O sujeito que me dá nos nervos toda vez que fala. É por isso que, com todo respeito ao idioma, eu o chamo de Nerval. Porque me provoca taquicardia analítica.
O Doutor ergueu ligeiramente os olhos, umedecendo a ponta da caneta. A anotação vinha.
— Mas veja só: ontem, o tal Nerval disse algo que ultrapassou a picuinha política. Foi quase uma incursão na psiquiatria, uma visita ao inconsciente geopolítico. Ele disse que o Trump — o topetudo-mor, o narciso armado — acredita, com todas as forças do seu ego inchado, que o Bolsonaro é inocente. E não por falta de provas. Mas porque ele, Trump, também incitou uma invasão, causou mortes no Capitólio e… saiu ileso. E como foi candidato de novo, acha que isso zera o jogo.
Nessa hora, o Doutor parou de escrever. Coçou o queixo. Mas continuou calado.
— O Trump raciocina mais ou menos assim: “Se eu, que sou a última bolacha do pacote imperialista, escapei, então meu amiguinho tropical também vai escapar. É só uma questão de tempo. Ou melhor, de chantagem.”
— E veja, Doutor: essa lógica doentia contaminou o Bolsonarismo. Eles acreditam piamente que só não foram perdoados ainda porque o Lula não quis. O mesmo Lula que virou bode expiatório oficial de tudo: da taxa de importação até a previsão do tempo. E, enquanto isso, o Congresso se contorce para fingir que anistiar bandido é democracia. E o STF? Tá virando refém da chantagem simbólica com a Lei Magnitsky contra o Xandão. O Brasil tá no modo “paga ou apanha”. E ainda tem brasileira, como a Mariete do apartamento 24, que apoia.
O Doutor arregalou as sobrancelhas como quem ouvia uma confissão de delírio coletivo e anotou: “identificação projetiva com o delinquente globalizado”.
— Agora veja… imagine se o Brasil e os Estados Unidos resolvessem erguer juntos uma nova Torre de Babel, versão 2.0. Tipo um Minecraft. Uma estrutura moderna, feita para unir os povos pela comunicação perfeita. Uma torre Wi-Fi, com firewall constitucional e tijolos de hashtags.
Juvenal chegou com os chopes e uma porção de manjubinha que ainda soltava fumaça. Depositou tudo na mesa com aquele ar de quem já ouviu besteiras maiores do que as que eu estava dizendo.
— Torre de Babel? Ih, lá vem bomba — murmurou, puxando uma cadeira.
— Calma que piora, Juvenal. Do lado americano, o Trump exige que a torre seja construída com tweets em caps lock e emojis de bandeira americana. “MAKE BABEL GREAT AGAIN!”, ele grita, enquanto distribui tijolos com o rosto dele estampado. Eduardo Bolsonaro tenta traduzir, mas só consegue repetir três palavras: “liberdade”, “armas” e “comunismo”. Propõe que a torre tenha um stand de airsoft e um museu do Olavo de Carvalho no mezanino.
O Doutor fez um gesto contido com a mão, tipo “continue, mas sem exageros”. Ignorei.
— Do lado brasileiro, Lula quer erguer a torre com tijolos simbólicos. Cada um representando um prato de comida, uma escola técnica, um verso de samba. Um discurso por tijolo. Já o Xandão exige tudo dentro das quatro linhas da Constituição e prepara a masmorra do Bolsonaro.
— Mas no dia da inauguração, Trump sobretarifa a masmorra, tira o sinal do Wi-Fi e desliga o sistema. Lula religa pelo comando de voz, mas Eduardo atira no roteador com paintball. E a torre, Doutor… explode.
Pausa. Silêncio.
— O senhor sabe bem, Doutor… a torre não caiu por má engenharia. Caiu porque Trump não escutava ninguém. Preso à própria linguagem, à própria fantasia. E, como diria alguém entre Lacan e a Dona Hermínia: “O sujeito tenta se fazer explicar para o Outro, mas o Outro… tá em modo avião.”
Pela primeira vez, o Doutor tirou os olhos do bloquinho e sorriu. Abriu uma página nova. E, com aquela solenidade que só ele tem, disse sua única frase do dia:
— Quando o Outro entra em modo avião… só resta torcer pro pouso não ser forçado.
Juvenal pigarreou. Fez menção de sacar um papel do bolso e anunciou:
— Agora é minha vez. Preparei uma carta-resposta praquela Embaixada que resolveu dar palpite onde não foi chamada. Posso ler?
Sem esperar resposta, começou:
— “Carta Aberta à Embaixada dos Estados Unidos no Brasil: Cola aí. Primeiro, que uma embaixada não lava roupa suja em público. Segundo, que aqui é papo reto e ninguém joga verde. O Brasil recebe todo juruá com cafuné, mas aqui não é casa da sogra. A cobra fuma quando o amigo da onça vem com nhenhenhém. Se o Trump anda à toa pelo mundo fazendo auê na economia, o Brasil não vai pagar o pato. Antes da Beth Carvalho cantar, a gente já dava a volta por cima. Caiu a ficha de Trump que a vaca foi pro brejo. Não querem suco de laranja? Os Brics bebem. Cutucaram a onça com vara curta, agora vão meter o rabo entre as pernas. E, no final, vão ficar segurando vela. ‘C’est la vie’. Ah, julguem logo a invasão do Capitólio. Em respeito ao povo de vocês.”
Silêncio. Manjubinhas crocantes. Chope gelado. O Doutor voltou a anotar.
Eu sorri, imaginando como um americano iria entender as intraduzíveis expressões juvenalianas.
— Pois é, Juvenal… A torre caiu, mas pelo menos aqui no bar, ainda se fala a mesma língua: ironia.
