Divã no Boteco – LXXX
Cheguei ao Fale Mais Sobre Isso e as mesas estavam mais vazias que minha conta após o débito automático. São Paulo finalmente desistiu de ser cidade para virar um estacionamento definitivo. O Doutor, meu analista, havia sumido em alguma Operação PAESE, mas deixou um envelope lacrado com Juvenal: “Só abra no final do happy hour”. Tortura psicológica gourmet.

— O Doutor partiu sob a garoa com um guarda-chuva verde-limão que não era dele — fofocou Juvenal, servindo o chope e a manjubinha, a única instituição nacional que ainda entrega consistência. — Ele disse que hoje nada mais é secreto. É o sintoma do Borderline Social: o limite entre o público e o privado virou geleia barata.

— Pior, Juvenal. Virou o octógono da CPMI do INSS. O Carlos Viana contando 7 votos onde as câmeras mostravam 14 reinventou a matemática. É a desrealização da realidade. O sujeito ignora o regimento para proclamar o próprio desejo.

— É o “ato” antes do pensamento — completou Juvenal. — O borderline não aceita o cinza. Ou o outro é um deus, ou é o demônio a ser aniquilado. Querem purgar o Lula atacando o filho; querem o tudo ou nada.

— Exato! E o Trump faz o mesmo do outro lado do oceano. Joga bombas no Irã como quem joga War e ataca a democracia dizendo-se vítima. É o incêndio gritando que está sendo perseguido pelo extintor.

— No fundo — concluiu Juvenal, recolhendo os vazios —, o país está se cortando para ver se ainda sente algo. Mas em vez de cortar na carne, a gente corta a democracia.

Tomei o último gole e rasguei o envelope. A frase do Doutor era um laudo psiquiátrico:

“O problema do limite é que, para quem vive na fronteira, a invasão é a única forma de sentir que existe.”

Fiquei em silêncio. Lembrei do meu velho amigo Peixinho avisando que com Trump o limite já era. Paguei a conta e notei que meu cheque especial também é borderline: vive no limite e flerta com o abismo. Saí pensando que, por aqui, a única coisa que separa a civilização da barbárie é o preço da dose. 


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