Divã no Boteco – LXXXV
O boteco do Juvenal é um estado de espírito com cheiro de fritura e cor de pôr do sol embriagado. As paredes, de um azul-piscina descascado que faria um decorador modernista ter um aneurisma, contrastam com o vermelho berrante das mesas de metal. Ali, o amarelo da tulipa de chope não é apenas uma cor; é a única luz no fim do túnel de um verão que insiste em não morrer. É o “Fale Mais Sobre Isso”, onde o balcão de fórmica marrom serve de fronteira entre a sanidade e o colapso geopolítico.
— É o fim do caminho para o Trump, Doutor — comecei, enquanto a TV no canto, sintonizada num volume que oscilava entre o caos e o Datena, vomitava imagens de porta-aviões no Irã. — E eu aqui, tentando separar meu ego do transtorno de personalidade alheio, entre uma golada e um suspiro.
No som ambiente, Stan Getz soprava “Águas de Março”. O saxofone parecia rir da cara da história. Trump, com aquele topete que desafia as leis da física e do bom gosto, certamente acha que Bossa Nova é uma marca de bronzeador artificial. O Doutor, o único ser humano no hemisfério sul que ainda usa uma caderneta de papel em vez de um smartphone, soltou um “hnn” que soou como um diagnóstico de óbito civilizatório.
Juvenal pousou na mesa uma porção de manjubinhas que brilhavam como ouro recém-saído do óleo fervente e duas tulipas cremosas.
— É pau, é pedra, é o fim da picada, meu analisado — disse, limpando o suor com um pano que já desistiu da própria dignidade. — O Trump na TV tem a cara de quem mastigou o próprio ego e achou sem sal.
— O problema, Juvenal, é que o narcisismo dele é blindado — retruquei, apontando para a tela onde analistas usavam palavras difíceis pra esconder o óbvio: o ego de um homem virou política externa. — Ele, o Bolsonaro, o Musk… é uma trindade de espelhos. O Musk quer Marte porque a Terra não comporta mais o reflexo dele. O Zuckerberg criou um cassino onde a gente aposta sanidade pra ganhar migalha de atenção. E o Bolsonaro… bem… é o imperador de cercadinho. Governa um país imaginário com seguidores reais.
Juvenal soltou uma risada curta, dessas que vêm com diagnóstico embutido.
— Narciso pelo menos teve a decência de morrer sozinho. Esses aí querem plateia, algoritmo e patrocinador. Nos deram um celular, analisado, e vimos um mundo doente, como os indígenas de Renato Russo.
O Doutor pigarreou seco.
Ele fechou a caderneta como quem encerra um prontuário sem alta.
E falou — uma única vez:
— Pare de psicologizar o caráter, meu caro. O narcisismo desses homens é o único projeto de governo e poder que eles têm. Eles não querem apenas seu voto e seu dinheiro. Querem o seu sistema nervoso.
O gelo do meu copo estalou como um veredito. O Doutor vestiu o paletó, deixou o dinheiro vivo sobre a mesa e saiu sem olhar para trás. Me virei para o garçom, oráculo do Fale Mais Sobre Isso, e perguntei:
— Juvenal… você acha que eu perco minha vida analisando o caráter deles para me sentir melhor? — perguntei, buscando um refúgio que já não existia.
Juvenal não respondeu de imediato. Pegou o controle remoto e desligou a TV. A tela preta devolveu o bar para a realidade bruta.
— Tá vendo? — disse ele, apontando para o vidro escuro. — Você não assiste à notícia. Você assiste ao seu próprio vício de ter razão enquanto o mundo acaba.
Engoli seco. O reflexo na tela apagada era um borrão cinza, sem filtro.
— Eles não precisam te convencer de nada — continuou Juvenal, recolhendo os restos das manjubinhas. — Só precisam te manter reagindo, conectado. Bravo, indignado, assustado… tanto faz. O seu ódio é o dividendo deles.
— E a saída? — arrisquei.
Juvenal parou, passou o pano de prato encardido no balcão e me encarou com uma piedade sádica:
— A saída é parar de achar que a sua indignação de boteco salva o mundo, quando ela só paga o Wi-Fi do Zuckerberg. Se quiser fazer a diferença, você precisa sair da mesa e ir pra rua.
Ele deu as costas. Enfiei a mão no bolso e, por puro reflexo condicionado, tateei o celular. Senti o metal frio. Bateu o desespero de checar se o mundo ainda estava lá.
Paguei a conta. Em dinheiro vivo. Saí do bar tentando não ser um rastro digital, mas na primeira esquina, o bolso vibrou.
Era uma notificação. O algoritmo sentiu minha falta.
Destravei a tela. Eu já não era mais o cliente. Eu era o produto, voltando para a prateleira por livre e espontânea vontade.
