Divã no Boteco LXXXVII
O “Fale Mais Sobre Isso” estava mais mudo que banqueiro em CPI — daqueles que esquecem até o próprio CPF. Aí a TV hipnotizou o boteco com a Artemis II voltando do lado escuro da Lua.
Fiquei olhando aquilo com o copo na mão, tentando entender se a humanidade estava evoluindo… ou só ensaiando mudança de endereço.
— Engraçado, né, Doutor… — puxei a cadeira sem convite — a gente cruza o espaço pra fotografar o lado oculto da Lua… mas foge de qualquer conversa que revele o lado oculto da própria mente.
O Doutor ergueu uma sobrancelha. Anotou. Sempre anota. Nunca contesta.
Juvenal chegou com manjubinha frita — filosofia servida em óleo quente.
— Isso aí tem nome, meu analisado. Uns chamam de hipocrisia. Mas se quiser pagar de profundo…
— Sombra — cortei. — Como disse Carl Jung. Aquela parte que a gente tranca no porão, finge que é do vizinho… mas continua mandando na casa.
Juvenal riu seco.
— Tipo o sujeito que odeia corrupção… mas pede “desconto fora nota”?
— Esse já fez sociedade com a própria sombra e ainda reclama da taxa.
O Doutor soltou um “hmm” que custaria caro fora dali.
Na TV, o narrador babava em “descoberta”, “avanço”, “exploração”. Eu só via cratera.
— Sabe o que me mata, Juvenal? — girei o chope — É a mesma nação que manda sonda estudar buraco na Lua… e abre crateras aqui embaixo com bomba. Lá em cima: transmissão ao vivo. Aqui embaixo: criança soterrada vira número — e não tem audiência.
O bar não riu. Espelho, limpo demais, constrange.
— E ainda tem o Donald Trump ameaçando destruir uma civilização como ato de grandeza — completei. — O sujeito acha que guerra é reality show: elimina o outro e chama de vitória.
Apontei o queixo pra mesa do advogado, que fingia trabalhar no celular.
— Aquele ali me ensinou uma coisa sem querer. Roma só virou Roma quando parou de desprezar o inimigo e começou a aprender com ele.
Juvenal fez um gesto impaciente.
— Traduz pro idioma da cerveja.
— Antes das Doze Tábuas, lei em Roma era oral. Quem aplicava? A elite. Ou seja: justiça com interpretação premium. Aí os plebeus cansaram. E Roma começou a olhar pros povos que desprezava e viu que os bárbaros já tinham regras escritas e mais claras.
Pausa.
— Aprendeu.
— E escreveu. Tornou público. Tirou a lei da mão de quem mandava e colocou na praça. As Doze Tábuas. O começo de um Direito que até hoje fingimos respeitar.
Juvenal mastigou devagar.
— Então Roma só se encontrou… quando olhou pros outros?
— Quando parou de projetar a própria sujeira nos outros e percebeu que o cheiro era dela — respondi. — Foi no espelho do “bárbaro” que descobriu a própria luz.
Olhei em volta. Gente discutindo eleição, Congresso, anistia, fascismo… cada mesa um tribunal improvisado, cada copo uma tese em curso.
— E a gente? — perguntou Juvenal.
Olhei pra TV. Depois pro copo.
— A gente prefere mandar sonda pra Lua do que encarar o porão.
O Doutor fechou o bloquinho com um estalo. Sempre o prelúdio da sentença.
Me olhou pela primeira vez na noite e disse:
— Civilização começa quando você para de investigar a escuridão dos outros… e assume a sua.
Silêncio.
Na TV, a Lua brilhava — limpa, distante, irresponsável.
No copo, o chope devolvia meu rosto — sem filtro, sem narrativa heroica.
Bebi.
— Iluminar o lado oculto talvez seja a única coisa que possa impedir Trump de cavar mais uma cratera aqui embaixo… e chamar os destroços de “progresso”.
