Divã no Boteco XCI
O Fale Mais Sobre Isso estava lotado.
Dia das Mães.
Chope espumando mais que debate na GloboNews e gente entrando até onde normalmente só cabia arrependimento. Chovia fino lá fora. Frio úmido. Clima perfeito pra inflação emocional.
Juvenal atravessava o salão como quem tentava impedir sozinho o colapso da civilização ocidental carregando tulipas e manjubinhas.
Exausto.
Dava pra perceber no olhar.
Juvenal era defensor radical do fim da escala 6×1. Segunda-feira o bar nem abria. Dizia que trabalhador também precisava lembrar o próprio nome antes de morrer.
Tinha dois cozinheiros.
João e Maria.
Se conheceram na cozinha. Brigavam como irmãos. Se amavam como cúmplices de guerra. Ambos casados. Ambos pobres. Ambos cansados.
João morava perto e ia de Uber quando a chuva apertava.
Maria vinha da região metropolitana.
Sem carro.
Sem milagre.
Sem tempo.
Mas tinha uma habilidade quase sobrenatural: sabia o ponto da cocção pelo cheiro. Nem relógio precisava. Parecia aquelas mães que descobrem febre no filho só de ouvir o silêncio da casa.
Na psicanálise talvez chamassem aquilo de arquétipo materno.
Na vida real chamavam de mulher sobrecarregada.
Como toda mãe, Maria tinha expediente duplo. Não porque o marido fosse ausente. Pelo contrário. Trabalhava fora e fazia a parte dele.
Mas mãe é uma instituição emocional impossível de terceirizar.
Toda cria quer a mão da mãe por perto.
Mesmo adulta.
Mesmo barbada.
Mesmo votando errado.
Naquele Dia das Mães, enquanto Juvenal explicava didaticamente para um homem que claramente era apontador do jogo do bicho que o bar não era agência lotérica clandestina, Maria veio até nossa mesa.
Trouxe as manjubinhas.
Duas tulipas.
E aquele olhar curioso que desmonta defesas mais rápido que CPI desmonta discurso liberal.
– Você que é o analisado?
– Infelizmente em tempo integral.
Ela riu.
O Doutor apenas ajeitou os óculos e fez uma anotação no bloquinho.
Hoje o silêncio dele parecia mais clínico que o normal.
– Tá lotado por causa do Dia das Mães – disse Maria. – O Juvenal tá tentando convencer o xará dele que hoje não era dia de fazer ponto do bicho aqui dentro.
– E ele também se chama Juvenal?
– Juvenal Inocêncio. Trinta anos no bairro. Quando chove, o nosso Juvenal põe ele pra dentro.
– O Juvenal deixa ele fazer jogo?
– Aqui dentro não gosta. Mas sabe que o homem tem três bocas pra alimentar. Então faz vista grossa. Só pede respeito.
Ela olhou pra chuva.
– O problema do Brasil é que quase todo mundo vive pendurado entre ética e boleto.
O Doutor levantou levemente uma sobrancelha.
Maria percebeu.
– Mas eu não gosto de jogo. A casualidade traz fortuna da boa e da má.
E saiu.
Fiquei olhando o apontador do bicho pela janela.
Setenta e tantos anos.
Dois filhos.
Dois netos.
Rotina.
Superstição organizada.
Enquanto isso eu tinha boleto, ansiedade e instituições emocionais escangalhadas.
– Sabe, Doutor… Dia das Mães sempre me deixa meio estranho.
Ele me encarou.
– Porque mãe é o último lugar simbólico onde a gente acredita que ainda cabe reparação.
O Doutor fez um pequeno movimento com a cabeça.
Incentivando.
Ou diagnosticando.
Difícil saber.
– Freud falava do luto como processo de desapego. Jung falava da Grande Mãe. A psiquiatria fala em vínculo seguro. O Brasil conseguiu transformar tudo isso numa fila do INSS emocional.
O chope chegou.
Juvenal apareceu secando as mãos no avental.
– Meus clientes favoritos estão sendo bem tratados?
– Juvenal… você tava discutindo com teu xará?
– Tentando civilizar o capitalismo paralelo.
Sentou um instante conosco.
Coisa rara.
– O problema do jogo do bicho – continuou – é que ele parece mais honesto que certas organizações políticas.
Rimos.
Lá fora um grupo de estudantes gritava contra Trump, Bolsonaro e fascismo enquanto dividia um guarda-chuva claramente pequeno demais pra realidade.
Silêncio.
Até a TV do bar parecia respeitar.
Passavam imagens de Lula e Trump sorrindo como divorciados obrigados a posar na formatura do filho.
Tarifas.
Minerais críticos.
Terras raras.
Estreito de Hormuz.
Petróleo.
Guerra.
Tudo misturado no mesmo liquidificador geopolítico.
– O Brasil virou especialista em sobreviver sem superar os traumas – continuei.
O Doutor anotava.
– Isso tem nome – continuei. – Exaustão funcional. Burnout. O sujeito não acredita mais nas estruturas… mas continua operando dentro delas.
Juvenal riu alto.
– O problema do brasileiro é que até o burnout chega terceirizado.
Nesse instante a chuva diminuiu.
O apontador do bicho levantou.
Agradeceu ao Juvenal.
Botou o boné.
E antes de sair falou alto:
– Deu galo!
Ninguém tinha perguntado resultado nenhum.
Mas o bar inteiro silenciou.
Porque “deu galo” soava menos como aposta e mais como diagnóstico nacional.
O Doutor então fechou lentamente o bloquinho.
Primeira vez na noite.
Olhou pra mim.
E disse:
– Tem gente que aposta no bicho pra fugir da realidade. O trauma brasileiro começa quando a elite vende a própria Mãe Gentil… e chama isso de modernização.
Pronto.
Cirúrgico.
Juvenal soltou uma risada curta.
Lá fora a chuva tinha parado.
O bairro brilhava molhado.
Inocêncio estava na esquina fechando o talão.
Fui até ele.
Não sei por quê.
Talvez cansaço.
Talvez superstição.
Talvez esse luto brasileiro que nunca termina porque ninguém deixa o país descansar.
– E aí… ainda dá tempo de apostar?
Ele me olhou de cima abaixo.
Cara de quem já tinha visto muito homem confundir esperança com vício.
– Dá.
– No quê?
Pensou alguns segundos.
Depois respondeu:
– No que você quiser.
– Aqui até senador aposta contra o Brasil… desde que o rendimento pague acima do CDI.
Fiquei parado.
Ao longe alguém canta desafinado.
Quase esperança.
Voltei pro bar.
E pela primeira vez na semana inteira…
o mundo pareceu cansado demais até pra fingir normalidade.
