Divã no Boteco – XCVI
O gol de Marrocos saiu aos vinte e um minutos, de cavadinha de Ismael Saibari.
Não foi apenas um gol.
Foi uma pintura brincando com a gravidade.
A bola subiu, encobriu Alisson e caiu dentro da rede com a precisão de quem encontra a janela espacial para Marte.
Marrocos 1.
Brasil 0.
O sujeito da mesa ao lado ainda ajeitava a bandeira nas costas quando a realidade abriu o placar.
No Fale Mais Sobre Isso, umas duzentas pessoas iniciaram simultaneamente as cinco fases do luto.
Negação.
Raiva.
Barganha.
Depressão.
E análise de arbitragem.
Juvenal surgiu com duas tulipas de chope.
Pousou uma diante de mim e outra diante do doutor.
– Freud adoraria uma Copa do Mundo.
– Por quê?
– Porque durante noventa minutos milhões de pessoas acreditam que o universo tem obrigação de satisfazer seus desejos.
O doutor ergueu uma sobrancelha.
Tirou o bloquinho do bolso.
Aquilo nunca era bom sinal.
O jogo seguiu.
A cada passe errado surgia uma explicação.
O gramado.
O técnico.
A umidade.
Mercúrio retrógrado.
Tudo era culpado.
Menos a possibilidade de Marrocos estar jogando melhor.
Aceitar a realidade nunca foi nosso esporte favorito.
Quando o Brasil empatou, o salão explodiu.
Abraços.
Gritos.
Chope voando.
Um estudante beijou um operador do mercado financeiro.
O operador correspondeu.
Aquilo foi mais improvável que o próprio empate.
Mas ninguém estava feliz.
Estavam aliviados.
E alívio não é felicidade.
É apenas a tragédia adiada.
Foi então que a televisão mudou de assunto.
Entrou uma reportagem sobre a colisão de luxo entre helicópteros.
Influenciadores.
Artistas.
Produtores de conteúdo.
Gente especializada em transformar desejo em imagem, imagem em audiência, audiência em dinheiro e dinheiro em viagens paradisíacas.
Até que a gravidade resolveu participar do destino.
E o metal virou sucata.
E por ironia da tecnologia, atingiram carros modernos lá embaixo que viraram carvão.
E a realidade dispensou comentários.
Juvenal observou a tela.
– Curioso.
– O quê?
– O helicóptero é uma máquina construída para convencer alguém de que não precisa do chão.
– E daí?
– Daí que a gravidade nunca aceitou essa tese.
O doutor anotou mais uma linha.
Precisa.
Cruel.
Foi então que percebi que o jogo, os helicópteros e o país inteiro talvez fossem a mesma história.
O torcedor quer a vitória.
O investidor quer lucro eterno.
O empresário quer cortar o custo trabalhista.
O financista quer um orçamento sem povo.
Todo mundo quer uma realidade sob medida.
Mas a realidade nunca assinou esse contrato.
Poucos quilômetros dali existia outro Brasil.
Um Brasil que acorda antes do sol.
Que pega ônibus lotado.
Que não participa de choques entre aeronaves.
Mas encontra bala disparada a esmo.
Que faz conta no mercado.
Que decide entre o aluguel, a prestação e o fim do mês.
Um Brasil que não sobrevoa a realidade.
Mora dentro dela.
Talvez por isso o empate tivesse produzido tanto silêncio.
Não era futebol.
Era a velha dificuldade humana de aceitar que o mundo não foi desenhado para satisfazer nossos desejos.
O jogo terminou.
Mas ninguém foi embora.
O telão continuava aceso.
Foi quando Juvenal recolheu os copos.
– Engraçado.
– O quê?
– Todo mundo entrou aqui para assistir futebol.
– E?
– No fim das contas, passaram duas horas assistindo à própria expectativa.
O doutor fechou o bloquinho.
Guardou a caneta.
Ajustou os óculos.
Esperou o silêncio pousar sobre as mesas.
E então pronunciou sua única frase da noite:
– O sofrimento começa quando tentamos dobrar a realidade para caber nos nossos desejos. A mudança começa quando a gente decide dobrar os desejos para transformar a realidade.
Ninguém respondeu.
Nem eu.
Nem Juvenal.
Porque, naquele instante, a televisão mostrou novamente o replay do gol de Marrocos.
A bola fez exatamente a mesma curva.
E, pela segunda vez, ninguém conseguiu impedir.
Foi então que percebi uma coisa.
A realidade não tem apenas replay.
A realidade tem delay.
O replay mostra o que aconteceu.
O delay, o preço.
