Divã no Boteco – XCIX
A apreensão chegou ao Fale Mais Sobre Isso antes de mim.
Estava nas tulipas de chope pela metade, nas bandeirinhas da Copa penduradas no teto, no olhar perdido dos estudantes, na inquietação dos bancários, na ansiedade dos advogados, na colher de pau de Maria batendo sem ritmo na panela e até no pano que Juvenal torcia nas mãos como quem tentava enxugar um pressentimento.
Assim que me viu entrar, ele veio em minha direção.
– Descobri um bar de brasileiros torcendo para a Argentina.
Parei no meio da porta.
– Existe isso?
– Existe.
Fez uma pausa.
– E o Laranjinha pediu o endereço.
Sorri.
– Deve estar brincando.
– Queria eu.
Entramos.
O Fale Mais Sobre Isso parecia uma pequena República provisória.
Numa mesa, estudantes discutiam esquema tático.
Noutra, advogados debatiam a jurisprudência do VAR no futebol.
Os bancários calculavam probabilidades como se escanteio obedecesse à matemática financeira.
João gritava da cozinha que ninguém venceria Copa de barriga vazia.
Maria respondia que também ninguém sobreviveria à tensão sem manjubinhas.
Fê e Day, funcionárias públicas e especialistas em assuntos semânticos, travavam um debate sobre o termo futebol.
– Futebol é um nome excludente.
– Concordo.
– O correto seria “esporte coletivo de predominância dos pés”.
– Muito mais democrático.
O Doutor ocupava sua cadeira de sempre.
Cabelo escuro.
Barba bem aparada.
Óculos discretos.
O bloquinho fechado ao lado do chope.
Observava tudo.
Não o jogo.
As pessoas assistindo ao jogo.
No canto mais distante do salão, Laranjão usava uma camisa da seleção norte-americana
Discretíssima para alguém que torcia descaradamente pela Noruega.
Ao lado dele, Laranjinha escondia sob a jaqueta uma camisa da Argentina.
– Hoje acaba essa empolgação brasileira e todo mundo volta ao trabalho – dizia.
Juvenal cochichou:
– O menino sofre de pertencimento invertido.
Na televisão:
– Apita o juiz!
O jogo começou.
E, com ele, começou também aquilo que Freud talvez chamasse de ansiedade antecipatória.
Cada ataque da Noruega acelerava os corações.
Cada saída de bola do Brasil produzia um pequeno alívio coletivo.
A psiquiatria talvez chamasse aquilo de resposta fisiológica ao estresse.
João e Maria chamavam simplesmente de torcida.
Veio um ataque da Noruega.
Silêncio.
Veio um contra-ataque brasileiro.
Brasil perdeu um pênalti.
O bar inteiro respirou junto.
Foi então que um estudante levantou o celular.
– Saiu o documento que Flávio Bolsonaro entregou nos States.
O advogado estendeu a mão.
– Deixa eu ver.
Na tela aparecia um documento.
Brasão do Senado.
Oitenta e seis páginas.
Endereçado ao USTR.
A mesa inteira se inclinou sobre o aparelho.
Pix.
Tarifas.
Estados Unidos.
Cartões de crédito.
Interferência econômica.
Eleição.
Timbre oficial.
Soberania.
Ninguém mais olhava para o garçom.
Todo mundo olhava para o papel na tela do celular.
Juvenal, que secava um copo lentamente, arrematou:
– No futebol isso é simples.
O advogado ergueu os olhos.
– O quê?
– Jogador que veste a camisa do Brasil, atravessa o campo e entrega ao técnico adversário o mapa da defesa.
O bancário respondeu sem pensar.
– Gol contra.
João apareceu na porta da cozinha e gritou:
– Vira-casaca.
O apontador do jogo do bicho nem levantou a cabeça.
Continuou limpando os óculos.
– A palavra certa é traíra.
O Laranjão sorriu.
– Vocês dramatizam tudo.
O advogado devolveu o celular.
– Não estou discutindo se alguém concorda ou não com as ideias. Estou olhando outra coisa. Quando o documento vai com o timbre do Senado, deixa de parecer apenas opinião individual. O peso institucional entra junto.
Laranjinha tentou aliviar.
– Política internacional é complicada.
Juvenal apontou para o telão.
– Complicado é explicar para a torcida por que alguém resolve pedir pênalti contra o próprio time.
A Noruega acertou a trave.
O bar inteiro estremeceu.
A conversa morreu.
Durante alguns minutos só existiram bola, respiração e coração.
Até que veio.
O gol.
Noruega.
Ninguém disse uma palavra.
O silêncio foi mais alto do que qualquer grito.
A frustração entrou no bar como um vento frio.
O advogado largou o copo.
Os estudantes abaixaram as bandeiras.
João desligou uma boca do fogão.
Maria parou de fritar as manjubinhas.
Fê e Day interromperam a discussão semântica pela primeira vez na noite.
Laranjão levantou os braços.
– Eu falei.
Laranjinha sorriu discretamente por baixo da jaqueta.
Veio o segundo gol.
A revolta apareceu.
Cada mesa procurava um culpado.
Uns culpavam Ancelotti.
Outros a defesa.
Outros o juiz.
Alguns culpavam o azar.
Juvenal apenas balançava a cabeça.
– A derrota tem uma estranha vocação para revelar quem somos.
– Como assim? – perguntei.
– Na vitória, todo mundo veste a camisa. Na derrota, aparecem os que já estavam procurando outra.
O Brasil ainda tentou reagir.
Neymar se despediu com um gol de pênalti.
Quando o juiz apitou o fim da partida, ninguém saiu imediatamente.
Era como se cada um precisasse fazer o luto daquele placar.
Olhei para as bandeiras.
Continuavam exatamente iguais.
Quem havia mudado éramos nós.
Ali compreendi outra coisa.
Pertencimento não é o que sentimos quando vencemos.
É o que escolhemos quando perder parece mais fácil do que continuar acreditando.
Juvenal olhou para o Laranjão.
– Derrota passa.
Gol contra moral demora muito mais.
O Doutor tomou o último gole de chope.
Abriu o bloquinho.
Escreveu uma única linha.
Fechou-o novamente.
Olhou para todos nós.
E falou:
– A frustração só destrói quem a transforma em ressentimento. Quem reconhece o próprio time sofre, aprende e volta a jogar.
Ninguém respondeu.
Não porque concordasse.
Mas porque certas frases atravessam primeiro o peito e só depois chegam à razão.
Olhei para o telão.
Os jogadores brasileiros agradeciam à torcida apesar da eliminação.
Pensei que talvez fosse essa a outra utilidade das Copas.
Ensinar que amar um país é muito mais difícil na derrota do que na vitória.
Saí do Fale Mais Sobre Isso convencido de que pertencimento talvez seja exatamente isso:
Continuar vestindo a mesma camisa, principalmente quando o placar deixa de oferecer qualquer recompensa.
