Divã no Boteco – CVII

Encontrei Juvenal parado no meio do Fale Mais Sobre Isso.

Bandeja numa mão. Pano no ombro. Olhar perdido na televisão.

– Juvenal?

– Estou estabilizado.

Olhei para o Doutor. Ele tirou o bloquinho do bolso. Grave sinal.

– Estabilizado como?

– Política econômica.

– Isso é protesto?

– Não. Ajuste Fiscal. 

João desligou a fritadeira. Maria recolheu as manjubinhas.

– Nós aderimos, disseram juntos.

– Posso saber que surto macroeconômico é esse?

Juvenal apontou para a televisão.

– Passei a semana assistindo às sabatinas. Zema, Renan Santos, Flávio, Lula… Quanto mais assistia, mais perplexo ficava com o desconhecimento da realidade ou com a omissão das intenções.

– E chegou a alguma conclusão?

– Terrível. Não fazer nada também é uma decisão.

João apareceu na cozinha.

– Se não comprarmos manjubinha, economizamos cem por cento da manjubinha.

– E se não vender?

– Economizamos trabalho.

Juvenal abriu os braços.

– Gás custa. Chope custa. Funcionário custa. Cliente quebra copo. Tudo produz instabilidade.

– Solução?

– Fechar o bar.

O Doutor anotou.

– Com o boteco fechado, despesa quase zero. Inflação da manjubinha controlada. João não pede aumento. Maria não compra peixe.

– E a receita?

Juvenal me olhou decepcionado.

– Meu querido Analisado, o senhor precisa estragar tudo com a realidade?

Na televisão reapareciam as sabatinas.

–Fiquei me perguntando o que cada candidato pretende fazer com o Brasil. Agora estou mais interessado no que pretende deixar de fazer.

Sentou-se à nossa mesa.

Na televisão apareceu Flávio Bolsonaro com a cola na mão:  “Mudança”, “futuro”, “7/set”.  

Juvenal imediatamente examinou a própria.

– Finalmente pensei que o programa estivesse ali.

– Na mão?

–  Mas procurei por “PIB”, “investimento”, “produtividade” “soberania”, nada…

João se aproximou.

– Olhou a outra mão?

Juvenal conferiu.

– Nada.

– Então o projeto deve estar no bolso das rachadinhas – disse Maria.

A televisão passou para Lula.

– Gostando ou não dele – continuou Juvenal –, pelo menos há uma ideia reconhecível na cabeça: crescer, investir, colocar dinheiro na economia, educação, saúde, soberania, construir um país. Podemos discutir se funciona, quanto custa, onde erra. Há alguma coisa para discutir.

– E os outros?

– Também têm propostas: inconfessáveis. São estatocidas.

– Quer dizer que matam o Estado?

– Só a parte que cuida das pessoas.

O Doutor escondeu um sorriso na barba.

Juvenal apontou para a fritadeira apagada.

– Veja nosso boteco. Está equilibrado. Ninguém investe, ninguém contrata, ninguém compra, ninguém vende. Completamente estabilizado.

Maria completou:

– E ninguém vive.

Silêncio.

O Doutor fechou o bloquinho.

– Toda omissão é uma escolha quando se conhece o que ela impede de ser realizado.

– Tipo a Rede Globo, quando não apontou as mentiras de Flávio Bolsonaro, falou Juvenal,  olhando para ele.

Depois caminhou até a cozinha e religou a fritadeira.

O chope voltou a correr. As manjubinhas mergulharam no óleo.

Em segundos, o Fale Mais Sobre Isso voltou a apresentar consumo, emprego, risco e crescimento.

Peguei meu copo.

Talvez a questão não seja escolher entre estabilidade e desenvolvimento.

Talvez seja descobrir quanto da vida queremos desligar para que os números parem de se mexer.

Juvenal pousou a conta na mesa.

– E isso também é uma decisão.


2 respostas a “Os Candidatos e Seus Programas Inconfessáveis”

  1. Avatar de Natalia Araujo
    Natalia Araujo

    Bom papo, ops crônica!
    E vou confessar um “inconfessável”: eu fico com a proposta do Barba. Não apenas pelo conteúdo, mas porque ela é a única que traz o kit projeto de país, soberania, Estado e distribuição de riqueza, ali tem muita coisa pra arrumar e criticar. MAS PELO MENOS TÊM!

    E o troféu vexatório do dia vai para a Globo, tão cuidadosa para não desmentir Flávio na lata.
    Com Lula, a régua sempre foi outra. Há décadas, a emissora não economiza em editorial, enquadramento e “correção” ao vivo.
    Será talvez seja apenas uma nova fase do jornalismo… ou talvez tenham descoberto que coragem editorial também tem circunstância… argh!
    Acertou em cheio, o problema não é só o que os candidatos confessam e sim o que a imprensa escolhe perguntar — e, principalmente, a quem ela serve e se dispõe a confrontar…

    Boas eleições meu caros, que comecem os jogos MUahahahahahahahaha

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