Divã no Boteco — CX
O Fale Mais Sobre Isso estava sitiado.

Não por causa das eleições. Ainda.

Joel, apontador do bicho, discutia na entrada com Laranjão, o ricaço da cobertura ao lado e clone do Trump.

– Quero meu dinheiro.

– Que dinheiro?

– Do cachorro.

Joel consultou o caderninho.

– O senhor não jogou.

– Mas pensei em jogar.

– Pensamento paga prêmio em outro lugar.

– Eu falei com você naquele dia!

– Falou. Veio dizer que ia comprar a casa onde moro, me despejar e subir apartamentos de luxo.

– E falei em cachorro.

– Falou que soltaria os cachorros para me tirar de casa.

Juvenal chegou com duas tulipas e manjubinhas. Olhei para meu psicanalista de boteco e disparei:

– Doutor, no jogo a chance de perder é maior. Por isso Joel ainda trabalha e Laranjão joga.

O Doutor tirou o indefectível bloquinho.

Foi quando Diva entrou.

Joel e Laranjão bloqueavam a passagem.

– Licença, por favor.

Laranjão abriu espaço.

– Para você, sempre.

– Obrigada.

Ela passou.

Laranjão sorriu para Joel.

– Viu?

– O quê?

– Ela.

Diva ouviu.

– Eu o quê?

– Não precisa ficar constrangida.

– Com quê?

– Com o clima.

Diva olhou em volta.

– Juvenal, ligaram o ar-condicionado?

– Não temos.

– Então não tem clima nenhum.

O bar riu.

Laranjão insistiu:

– Você sorriu para mim.

– Educação.

– Mexeu o cabelo.

– E daí? Eu tenho cabelo.

– Pediu licença daquele jeito interessante…

– Eu só queria passar, seu babaca.

– Essa é a sua interpretação.

O boteco fez silêncio de ocorrência policial.

Juvenal entrou no meio.

– Quando a mulher tem que explicar o que quis dizer, é porque o homem precisa encerrar o papo.

Diva sentou conosco.

Olhei para o Doutor.

– Está vendo? Primeiro faz uma aposta que nunca fez. Agora recebe um “com licença” e já escolhe a viagem de lua de mel.

Ele anotou.

– Estou tentando entender o Brasil.

Diva pegou uma manjubinha.

– Coitado.

– Como duas pessoas olham a mesma realidade e veem coisas tão diferentes?

Juvenal serviu meu chope.

– Como assim?

– Flávio Bolsonaro, por exemplo.

Diva ergueu os olhos.

– Estragou a manjubinha.

– Apesar de todas as evidências e provas contrárias, há quem veja nele o homem para combater o crime organizado e a corrupção. Mas ele é exatamente o oposto do que diz ser.

– São duas visões contraditórias da mesma pessoa – disse Juvenal.

– Quero entender como as pessoas podem ter opiniões tão distantes uma da outra sobre a mesma coisa.

Diva apontou para Laranjão.

– Começa por aquele ali.

Ele ainda explicava a Joel que pensar na aposta quase a tornava válida.

– Talvez a escolha nem comece por quem a pessoa prefere, mas sim por quem rejeita – disse Juvenal.

– Primeiro: “esse eu não quero”. Depois o cérebro recebe a missão de provar que um outro serve.

Diva tomou um gole.

– Raciocínio motivado.

– Não roube minhas falas difíceis.

– Você estava demorando.

Apontei para Laranjão.

– Queria ter apostado, reformou a lembrança. Queria que Diva estivesse interessada, reformou o “com licença”. O fato continua no térreo; ele levanta uma cobertura de fantasia em cima e depois jura que sempre morou lá.

Juvenal assentiu.

– Sem planta, sem alvará e com vista panorâmica para a própria conveniência.

Olhei para o Doutor.

– E se às vezes a gente escolher primeiro o que quer afastar e só depois reorganizar a realidade para justificar o resto?

Diva apontou a manjubinha.

– Me inclua fora dessa gente.

Doeu mais do que deveria.

O Doutor percebeu. Fechou o bloquinho.

– O desejo não muda a realidade; mas afasta da consciência tudo o que a pessoa vê como ameaça à própria crença.

Silêncio.

Joel gritou da entrada:

– E ele continua sem ter apostado no cachorro!

Laranjão virou-se.

– Diva, posso pagar seu chope?

– Não.

Ele sorriu para Joel.

– Viu? Está se fazendo de difícil.

Juvenal recolheu tudo.

– Doutor, amanhã o senhor cobra duas sessões. Uma do paciente e outra da realidade.


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