Divã no Boteco — CXV

Cheguei ao Fale Mais Sobre Isso e encontrei um sujeito marchando na calçada, com uma bandeira brasileira apoiada no ombro.

– Direita, volver! Meia-volta, volver!

Vestia calça camuflada, camisa verde-amarela, jaqueta nas mesmas cores e uma faixa presidencial. Na barriga, uma gaze manchada de groselha simulava um ferimento.

Quando tentei passar, ele me barrou.

– Quem autorizou sua entrada, seu comunista?

– O proprietário. E, se não me engano, a Constituição.

O homem bateu continência para um poste.

Juvenal apareceu com seu inseparável pano no ombro.

– Entre, meu analisado. Não dê atenção. Desde a derrota do bolsonarismo, a realidade anda provocando surtos de reações inesperadas.

– Quem é essa criatura?

– Diz que é Jair Bolsonaro. Chegou marchando, exigiu continência e pediu para assumir o comando do estabelecimento.

– E você?

– Informei que o bar é território suíço. Aqui ninguém toma o poder sem pagar a conta. E, pelo visto, ele não está nem com a carteira de identidade,

Acomodei-me diante do Doutor, que já estava com o bloquinho aberto, observando o manifestante com a concentração de quem descobrira um novo capítulo da psicopatologia cotidiana.

– Doutor, como explicar essa ruptura entre o desejo e a realidade?

Ele ergueu os olhos, mas permaneceu calado.

Juvenal trouxe as manjubinhas, que crepitavam à distância, e disse:

– Meu analisado, Freud falava da negação. Quando a realidade incomoda, o sujeito encontra um jeito de afastá-la da consciência.

– Mas isso é delírio?

– Nem sempre. Às vezes é fantasia, às vezes é propaganda. E às vezes é só falta de vergonha.

– Certo, tipo Flávio Bolsonaro. Perdeu a eleição, fugiu para os Estados Unidos, para não enfrentar a Justiça, e divulgou uma carta proclamando-se presidente eleito. Comparou-se a Rui Barbosa e Charles de Gaulle. Depois, editou a carta, autodestituiu-se da Presidência e se autoproclamou líder. Sabe-se lá de quê.

– Um Napoleão de hospício em Miami!

– Primeiro tomou posse de si mesmo, depois negociou o próprio cargo.

Juvenal enxugou uma tulipa.

– É a primeira presidência da República sem território, mandato ou expediente.

– E tem precedentes! Lembra dos devotos de pneus? Dos que esperavam intervenção divina diante dos quartéis? Teve até gente agarrada à frente de caminhão para impedir que a História seguisse viagem!

– O pneu virou altar, o quartel virou igreja e o caminhão, arca de Noé.

– Como alguém chega a esse ponto, Juvenal?

– O sujeito aprende a acreditar antes de aprender a pensar. Depois, qualquer mentira que confirme sua crença vira verdade.

– É o analfabetismo político. Não compreendem as instituições, desconhecem como funciona o poder e acabam prisioneiros de mitologias fabricadas.

– São como zumbis da política, meu analisado. Não precisam de cérebro emprestado. Basta alguém lhes dizer o que pensar.

– Mas não podemos confundir ignorância com maldade. Há quem seja enganado e há quem organize o engano.

– Exatamente. Uns acreditam que o pneu vai salvar a pátria. Outros retiram e vendem o pneu.

Nesse instante, o Laranjão entrou no bar.

Usava boné vermelho, gravata e um adesivo no peito: FLÁVIO PRESIDENTE.

– Esse estabelecimento ainda vai ser meu! E esse psicanalista é um inimigo da liberdade!

O Doutor nem piscou.

– Senhor Laranjão – interveio Juvenal, a liberdade de expressão não inclui tomar o estabelecimento dos outros.

– Eu posso comprar esta cidade inteira!

– O senhor nunca vai comprar o Fale Mais Sobre Isso.

– E o irmão dele, Trump, Juvenal? – provoquei. – Acha que é dono do mundo. Já tratou a Groenlândia, a Islândia e o próprio Canadá como se fossem territórios disponíveis para escritura.

– É a megalomania colonial com aplicativo de imobiliária. Um quer comprar o planeta, o outro quer comprar a Faria Lima.

O Laranjão ignorou a advertência e saiu para conversar com o homem da bandeira. Os dois cochicharam durante alguns minutos.

De repente, o manifestante interrompeu a marcha.

– Atenção, patriotas! Retifico minha identidade! Não sou Jair Bolsonaro!

O bar inteiro ficou em silêncio.

– Sou Flávio Bolsonaro, presidente da República do Brasil!

Os estudantes explodiram em gargalhadas.

– Da República Federativa das clínicas de tratamento! – respondeu um estudante de psicologia.

Maria apareceu à porta da cozinha.

– Juvenal, avise a esse presidente que aqui a maquininha não aceita posse por aproximação!

Até João abandonou as panelas para assistir à cerimônia.

– Juvenal, isso me lembra a dissonância cognitiva. Quando os fatos contrariam uma crença, o sujeito prefere modificar os fatos.

– Ou troca de identidade, como esse aí. Saiu de Jair e chegou a Flávio sem precisar passar pelo cartório.

Olhei para o Doutor.

– Afinal, doutor, o que acontece quando alguém acredita que a própria vontade vale mais que a realidade?

Ele fechou o bloquinho e pronunciou sua única frase da noite:

– O delírio começa quando o desejo deixa de negociar com a realidade e passa a exigir que ela lhe preste continência.

Juvenal recolheu as tulipas.

– Então acabou, meu analisado?

– Não, Juvenal. A eleição terminou, mas a briga entre o desejo e a realidade está só começando a esquentar.

– E quem ganha essa briga?

Olhei para o homem que prestava continência à própria imagem refletida na vitrine.
– A realidade, Juvenal. Ela pode até demorar, mas sempre se impõe. O problema é que, para enxergá-la, é preciso parar de olhar para o próprio espelho.


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