Divã no Boteco LXXXVIII
— Doutor, não vou te aborrecer descrevendo minha ansiedade, disse. — Seria interminável — e, convenhamos, hoje em dia todo mundo tem ansiedade como quem tem plano de dados: ilimitado e meio inútil.
Ele levantou os olhos por cima dos óculos — não sei se surpreso ou só avaliando o quanto daquilo era sinceridade e o quanto era autopiedade gourmet.
Antes que o silêncio ganhasse corpo, o Juvenal pousou na mesa uma porção de manjubinhas crocantes — filosofia frita em óleo que reúne mais história que muito arquivo nacional.
O “Fale Mais Sobre Isso” estava estranho naquele fim de tarde.
Sóbrio demais.
Gente demais olhando pra tela e ninguém olhando pra ninguém.
Todo mundo conectado.
Ninguém presente.
Casais trocando silêncio.
Amigos trocando tela.
E a sensação coletiva de que a vida virou um aplicativo que ninguém entende direito, mas ninguém desinstala.
— Meu analisado… — disse Juvenal, alinhando as tulipas de chope como quem organiza um raciocínio — as pessoas estão descrentes em tudo. Será que tua ansiedade não vem daí?
Olhou pro Doutor buscando cumplicidade.
O Doutor pigarreou. Aquele pigarro clássico de quem vai falar… e nada fala.
Anotou no bloquinho.
Provavelmente algo como: “garçom invade sessão terapêutica com precisão cirúrgica”.
— Eu acho que já passei dessa fase — respondi — mas talvez o problema seja outro… talvez eu não esteja acreditando de verdade em nada. Veja, por exemplo, as publicações de Trump: provocam mais descrédito que reunião do Copom sobre queda de juros.
O Doutor agora me olhava como quem encontra material clínico fresco.
Juvenal não perdeu o timing:
— Normal. A gente vive num suco de hiperinformação. Ninguém digere nada, ninguém elabora nada. É só estímulo. É cérebro em chapa de rodízio. E ainda tem essa campanha permanente de que tudo é ruim, todo mundo é ruim, a política é ruim… no fim, sobra o quê?
— Nada — eu disse.
— Olha ele aí… — Juvenal sorriu — o paciente chegou ao niilismo. Apesar de que sempre tem um Malafaia pra provar que o culto tá ruim de tão caro.
Dei de ombros.
— Estamos todos um pouco lá. Uma espécie de Dostoiévski de aplicativo. Personagens perdidos, com Waze e sem destino.
— Niilismo — repetiu Juvenal, agora mais sério — negação de tudo. Valor, verdade, futuro. Só que isso aí não é só filosofia, não. Isso vira comportamento… e às vezes vira perturbação.
Eu ri sem humor:
— Explica então por que tem quase meio milhão de afastamentos por ansiedade e depressão no Brasil. Explica por que mais de 40% das pessoas dizem viver ansiosas. Explica essa sensação de que nada vale o esforço — principalmente pra quem trabalha em 6×1 atendendo balcão.
— Isso não é só cansaço — disse ele — é esvaziamento.
O bar, que sempre foi uma zona neutra em plena guerra, parecia agora um abrigo de gente cansada demais pra lutar e desconfiada demais pra acreditar.
Na TV, um comentarista berrava sobre pesquisa de intenção de votos.
Na mesa ao lado, estudantes não acreditavam como o 01 da rachadinha pudesse ter tanta intenção.
No canto, um sujeito defendia anistia com a convicção de quem terceirizou a própria consciência.
— O problema — continuei — é que venderam que nada presta. Instituição não presta. Política não presta. Ninguém presta. E quando tudo perde valor…
— Nada sobra — completou Juvenal.
— Ou sobra o pior — eu disse.
O Doutor se mexeu na cadeira.
Levantou levemente a cabeça, como um pastor alemão farejando alguma coisa importante.
Eu segui:
— E aí tem articulistas, como Vera Magalhães, que acham que estão sendo críticas… mas, na verdade, só desistiram da análise. Acham que estão lúcidas, mas só ficaram cínicas. O sujeito troca projeto por meme. Troca realidade por presunção.
Juvenal cruzou os braços:
— O niilismo é confortável. Não exige compromisso. Não exige futuro. É só negar… e dizer que ouviu o outro lado.
— E quem organiza o mundo enquanto a gente nega tudo? — perguntei.
Silêncio.
Pela primeira vez, o Doutor fechou o bloquinho.
Olhou direto pra mim.
E falou:
— Quando tudo perde sentido, qualquer coisa pode ocupar o lugar do sentido — inclusive o pior… ou o melhor, mas você vai ter que acreditar.
Ele levantou.
Pagou a conta sem olhar o valor — o que, convenhamos, já é um ato revolucionário nos dias de hoje — e saiu.
Fiquei ali.
O chope já sem colarinho.
As manjubinhas frias.
E uma sensação incômoda de que talvez minha ansiedade não fosse excesso de coisa…
Mas falta de sentido mesmo.
Juvenal recolheu os copos, me olhou de lado e mandou:
— Relaxa, meu analisado… o problema não é você não acreditar em nada.
Deu uma pausa.
— É o nada começar a acreditar em você.
