Divã no Boteco – LXXXIX
O “Fale Mais Sobre Isso” estava cheio, mas fazia um silêncio estranho — desses que só aparecem quando todo mundo resolveu falar alto demais dentro da própria cabeça.
A TV berrava alguma coisa sobre o atentado ao Donald Trump — replay em câmera lenta, especialista apontando falha, comentarista dizendo “isso muda tudo” pela milésima vez na história da humanidade.
Numa mesa mais ao fundo, um grupo discutia o pós-final do Big Brother Brasil 26 como se fosse crise diplomática.
Eu fiquei ali, olhando pro copo.
Vazio.
— Juvenal… — chamei, sem muita convicção.
Ele veio com a toalha no ombro e aquela cara de quem já diagnosticou antes mesmo do paciente abrir a boca.
— Ih… o que foi, meu analisado? — encostou o corpo na mesa — foi o fim do BBB ou foi o atentado contra Trump?
— Nenhum dos dois.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Pior ainda.
O Doutor, do outro lado, nem levantou a cabeça. Só puxou o bloquinho. Sempre ele.
— Sabe o que é estranho, Juvenal? — dei um gole no nada — acabou o programa, teve tiro, teve análise política… mas nada disso, hoje, me afetou.
— E o que te abateu?
Olhei pro copo de novo.
— Eu perdi um amigo.
O bar continuou barulhento. Mas ali, na mesa, fez um silêncio que não combinava com o happy hour.
O Doutor parou de escrever por um segundo. Só um.
— E, desde então… — continuei — parece que eu perdi a confiança nas coisas também.
— Como assim?
— Eu olho pro mundo e não acredito mais. Nem no Trump tomando tiro, nem em reality, nem em nada. Se amanhã disserem que ele morreu… eu acho que vou duvidar.
Juvenal puxou a cadeira.
— Isso aí é um luto mal resolvido disfarçado de análise internacional.
O Doutor fez um leve movimento de cabeça. Concordando. Sempre econômico.
— Porque é o seguinte — Juvenal continuou — quando você perde alguém de verdade… você não perde só a pessoa.
— Eu sei — respondi — perde um pedaço da gente.
— Não. — ele apontou o dedo — perde três coisas.
Pronto. Lá vinha o garçom com pós-graduação em psicanálise de balcão.
— Primeiro — ele levantou um dedo — você perde a cumplicidade. Aquela pessoa que entendia a piada antes dela existir.
Balancei a cabeça.
— Solidão específica.
O Doutor anotou. Sublinhou.
— Segundo — Juvenal levantou outro dedo — você perde quem testemunhava sua vida. Quem lembrava quem você era quando você mesmo esquecia.
Engoli seco.
— Desamparo…
O bar parecia mais distante agora.
— E terceiro — ele levantou o último dedo — você perde o único lugar onde você podia ser você mesmo sem precisar performar com máscara social.
Fiquei em silêncio.
— Orfandade simbólica — murmurei.
O Doutor fechou o bloquinho com um leve estalo. Como quem diz: “finalmente”.
— Tá vendo? — Juvenal continuou — é que você acabou de perder o olhar de quem não precisava atuar.
Olhei em volta.
Mesa cheia. Gente rindo. Gente discutindo democracia como se fosse campeonato.
Mas tudo meio… artificial.
— Eu acho que fiquei sem espelho, Juvenal.
— Ficou sem espelho, sem plateia e sem cúmplice — ele respondeu — o pacote completo.
— E aí? — perguntei — o que faz com isso?
Ele deu de ombros.
A TV voltou a repetir o atentado. Mais uma vez.
— Engraçado — falei — um tiro num presidente mobiliza o mundo inteiro…
Parei.
— …mas perder um amigo…
— …ninguém transmite ao vivo — completou Juvenal.
Ficamos em silêncio.
E foi aí que o Doutor fez o que ele sempre faz: nada… até fazer tudo.
Ele levantou os olhos.
Uma única frase.
— Você não deixou de ser quem é. Perdeu quem reconhecia o que você é.
Silêncio.
Juvenal levantou devagar.
— Espera aí.
Sumiu.
Voltou com três tulipas de chope, espuma perfeita, e uma porção generosa de manjubinha.
Colocou na mesa.
— Essas são por conta da casa.
— Por quê?
Ele deu um meio sorriso.
— Porque luto não se resolve… se rearranja.
Empurrou o copo na minha direção.
— E o que sobra… a gente divide.
Olhei pro chope.
Cheio.
Dei um gole.
Pela primeira vez na noite… não parecia que estava faltando alguém.
Só parecia que ele tinha mudado de lugar.
(Em memória do amigo e professor Edson Osmar Rodrigues Arruda, Nenê)
