Divã no Boteco – XC

Era um misto de raiva e indignação. Mas não dessas que passam depois de um chope gelado — era daquelas que ficam fermentando no peito, tipo cerveja ruim esquecida no sol.

Do lado de fora do Fale Mais Sobre Isso, a cena parecia assembleia de sindicato com crise existencial coletiva. Bandeiras vermelhas tremulando, estudantes gritando “Congresso inimigo do povo”, e uma energia no ar que misturava Primeiro de Maio com sessão de terapia em grupo 

De longe, vi o Juvenal negociando o espaço com a multidão, como quem tenta organizar o inconsciente coletivo com uma bandeja de manjubinha.

— Calma, minha gente! Aqui é território democrático! — gritava ele, equilibrando três tulipas de chope e uma crise institucional.

Fui abrindo caminho no meio da massa. Mais xingamentos, mais memes ao vivo, mais gente com aquele olhar de quem descobriu que o mundo não é justo… e resolveu não aceitar.

— Alcolumbre traidor!
— Traidor! Vendido!

Aquilo me pegou no meio do caminho.

Como pode o inimigo virar traidor?

Guardei a pergunta.

Juvenal me viu e fez um gesto de resgate.

— Vem, meu analisado. Hoje o povo tá em surto… e você também.

Não discuti. Ele me escoltou até a mesa.

E lá estava ele.

O Doutor.

Imóvel. Sobrancelha arqueada. Bloquinho aberto.

Sentei.

Respirei.

Fracassei em parecer equilibrado.

— Doutor… eu tô com raiva.

Ele não reagiu. Só anotou.

— Não é uma raiva qualquer… parece que a gente apanha, levanta, acredita… e aí vem um acordão por cima e… pá… nocaute institucional. Com Supremo com tudo. O efeito BolsoMaster na política nacional. 

A sobrancelha dele subiu.

— E agora chamam o Alcolumbre de traidor… mas traição não pressupõe aliado?

Ele anotou.

Juvenal entrou:

— Quando você chama de traição, você confessa que acreditou.

Silêncio.

— Desde quando inimigo trai? — completou — Inimigo faz exatamente o que se espera dele. E ele entregou a redução da pena dos golpistas para proteger os rastros do Banco Master. 

Bebi.

Amargo.

— Talvez não seja traição… seja ingenuidade nossa.

— Agora você começou a sessão — disse Juvenal.

O Doutor seguiu escrevendo.

— Tá todo mundo tratando o Congresso como vilão absoluto… virou o “objeto mau”.

— Melanie Klein — disse Juvenal — ou é tudo bom ou tudo ruim.

— Você virou freudiano?

— Não. Só observo sintomas de cliente bêbado e da política brasileira, que são a mesma coisa.

Dei um gole no chope.

— Mas mexeram com o nosso narcisismo coletivo… aquilo no Senado bateu como humilhação.

O Doutor parou de escrever.

Silêncio.

— Quando o “pai simbólico” apanha… todo mundo sente — arrisquei.

— E aí vem a raiva — disse Juvenal — porque é mais fácil do que admitir impotência.

Olhei ao redor. Gritos, lives, posts.

Ira… e desespero disfarçado.

— E quando fica intenso demais… a gente foge.

— Pro feed?

— Pro feed do TikTok ou do Instagram.

— Enquanto o mundo pega fogo, a gente controla a tela — disse Juvenal.

— Então a gente oscila entre mudar o mundo… e deslizar o dedo?

— Sobrevivência psíquica.

Silêncio.

Lá fora: o fim da escala 6×1, a disputa pela Paulista e o STF.

Tudo ao mesmo tempo.

Raiva. Esperança. Ansiedade. Meme.

— Parece que a gente tá sempre recomeçando… como se nada fosse suficiente.

O Doutor cruzou as pernas.

Anotou.

Clímax.

— Primeiro de Maio nasceu de gente que morreu lutando por jornada digna… e a gente ainda briga por tempo pra viver.

Juvenal serviu mais chope.

— Se eles tivessem desistido… você nem estava aqui reclamando.

Aquilo bateu.

— Então essa raiva não é só destrutiva.

— É energia — disse Juvenal.

Olhei o Doutor.

Silêncio absoluto.

Ele fechou o caderno.

E disse:

Raiva que não vira ação vira sintoma. Raiva que vira ação vira história.

Pronto.

Fiquei parado.

Lá fora, alguém começou a cantar.

Era quase… esperança.

Juvenal sorriu, já recolhendo os copos.

— E aí… protesto ou meme?

Levantei.

— Primeiro… parar de chamar inimigo de traidor.

Ele assentiu, satisfeito.

— Depois?

Olhei pra pra multidão.

— Depois… lutar melhor contra o inimigo.

Juvenal deu aquele meio sorriso de quem já viu esse filme antes.

Porque no Brasil…

a gente luta…

e, quando aprende…

descobre que o problema nunca foi falta de força —

foi excesso de ingenuidade.


3 respostas a “O dia em que a raiva pediu uma mesa”

  1. Avatar de slomesquita
    slomesquita

    Saudades dos tempos de militância que terminavam nos botecos. Sempre tinha um filósofo ou um Dr.

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  2. […] originalmente em Divã no Boteco – XC. Enviado pelo […]

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  3. Avatar de Sophia Molinari
    Sophia Molinari

    ameiiii, eu acho que quando tava acontecendo o protesto do roblox ele deveria ter feito tbm, kkkkk #souafilhadele

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