Divã no Boteco – XCII
O Fale Mais Sobre Isso estava coalhado de estudantes de audiovisual. Da porta ao balcão, gente com crachá no pescoço, câmera na mão, roteiro debaixo do braço e aquela cara de quem descobriu que enquadramento também é militância.
Vieram para a Conferência Nacional de Cinema. Numa brecha entre financiamento público e estética decolonial em plano-sequência, invadiram o boteco mais famoso da cidade.
Eu adorava aquela atmosfera. Jovens inteligentes discutiam como transformar sentimento em cena, trauma em montagem, silêncio em close, culpa em contraluz e vergonha em expressão corporal. Um bando tentando filmar o invisível num país onde o visível já é escandaloso o suficiente.
Juvenal estava encantado.
– Os cineastas do futuro estão todos aqui – disse ele, pousando duas tulipas cremosas e uma porção de manjubinhas na mesa.
O doutor observava com seu olhar de esfinge freudiana, piscando devagar enquanto o enxame de videomakers tomava o bar como extensão etílica da Cinemateca.
– Depois das redes sociais, Juvenal, todo mundo tem um canal. Essa rapaziada vai ter profissão?
Juvenal apoiou a bandeja na cintura.
– Meu querido analisado, hoje todos querem dirigir um filme. O problema é que poucos querem entender a alma humana antes de ligar a câmera.
O doutor ergueu a sobrancelha. Em código clínico: “Continue, o garçom está mais lúcido que você”.
– Cinema é sonho coletivo – prosseguiu Juvenal. É sonho sonhado junto. Cria gente que não existe, mas passa a morar na cabeça do povo como o vizinho com dívida e trauma de infância.
– Tipo Zorro?
– Exato. Zorro, Darth Vader, Carlitos, Macunaíma, Batman, Coringa…
Juvenal apontou para uma mesa no canto. Um sujeito de camisa preta, óculos redondos e cabelo desgrenhado falava alto, cercado de estudantes.
– Aquele é o Otávio. O Mito.
– Mito por quê?
– Porque entra em todas as mesas da conferência sem pagar inscrição e sai como referência bibliográfica. Dizem que faz roteiros para primeiras-damas de empresários bem-sucedidos depois da terceira harmonização facial.
O doutor tirou o bloquinho do bolso. Eu sabia: algum sintoma meu seria diagnosticado.
– O problema não é só o Otávio – continuei. – Com tanta tecnologia, qualquer um edita biografia, corta cena inconveniente, coloca trilha épica, baixa a saturação da culpa e transforma golpista em mártir.
Juvenal concordou.
– A montagem é arma perigosa. Dependendo do corte, reunião de condomínio vira resistência democrática.
– Veja o Mário Frias querendo filmar Bolsonaro como herói nacional. Operação estética de lavagem emocional: vida cheia de ataques às instituições, temperada com lágrima, criança em câmera lenta, violino ao fundo, bandeira contra o sol. Nasce o mártir de quinta categoria.
– Mártir de quinta parece ingresso promocional – riu Juvenal.
– E olhe que ainda cobram taxa de conveniência.
O doutor anotou algo. Eu tentei espiar. Ele virou o bloquinho. A terapia ali era transferência, contratransferência e sonegação de pauta.
– O pior é o dinheiro. Banco Master, emenda parlamentar, empresário quebrado e família Bolsonaro na mesma frase: o roteiro sai do drama político e entra no realismo fantástico bancário.
– No Brasil isso é documentário de orçamento médio – completou Juvenal.
– Ninguém sabe se o dinheiro era pra filmar, financiar vaidade, bancar exílio dourado ou pagar aluguel no Texas.
O doutor gesticulou para eu continuar.
– Veja o Flávio. Pego no pulo, nega, diz que não tem dinheiro público, transforma pergunta em perseguição. Mas o corpo entrega: coçada no rosto, mão pedindo distância, desconforto. A boca sustenta o cinismo, o corpo ainda guarda resquício de vergonha.
Juvenal serviu mais chope.
– Vergonha é curto-circuito entre o que queremos parecer e o que o olhar do outro revela, não é, doutor?
O doutor ficou em silêncio.
– Vergonha não é culpa. Culpa se sente sozinho. Vergonha precisa de plateia. É ser visto. Exposto. Desmontado.
– E quando a vergonha é demitida – disse Juvenal –, o cinismo assume a vaga. Como cargo de confiança com auxílio-moradia moral.
Do outro lado, Otávio levantou o copo:
– Esse Mário Frias é fraude! Eu faria melhor!
– Com dinheiro do Master, qualquer um vira Fellini! – respondeu um estudante.
A mesa riu. Juvenal não perdeu a deixa:
– Fellini filmava sonho. Frias quer filmar álibi.
Na TV, reportagem sobre ameaças à democracia. Legenda: “polarização”. Palavra covarde. Quando um lado ameaça incendiar a casa e o outro usa o extintor, chamam de polarização.
Uma moça de cabelo azul:
– O fascismo entende de imagem.
– E pouco de vergonha – completou o rapaz.
O doutor fechou o bloquinho. Sinal de alerta. Ele olhou para todos e disse:
– Quando a vergonha deixa de ser freio e vira figurino, a política abandona a ética e entra em cena como farsa.
Ficamos quietos. Frase dura o suficiente para quebrar a espuma do chope.
Otávio parou dois segundos na performance, depois pegou uma tulipa vazia, colocou no peito como bandeira e caminhou em câmera lenta.
Um estudante narrou:
– Interior. Boteco. Fim de tarde. Homem sem financiamento emocional atravessa o quadro.
– Close na cara de pau – completou outro.
Juvenal apagou metade das luzes. A TV travou no rosto do 01 diante da pergunta incômoda: boca aberta, olho fugindo, mão no rosto, meio sorriso de quem viu a câmera chegar antes do advogado.
Parecia cinema. Mas era o clã passando vergonha em alta definição.
Então o projetor de um estudante acendeu. A imagem refletiu enorme e torta na parede, sobre o letreiro do bar. O rosto ficou gigantesco. Otávio pareceu minúsculo diante da projeção.
– Que plano lindo – sussurrou a moça de cabelo azul.
Otávio ergueu o copo vazio:
– E agora? Qual é o final?
Juvenal pegou uma manjubinha, apontou para a imagem e disse:
– O final é simples. Quando o vilão perde a vergonha, a plateia precisa perder o medo.
