Divã no Boteco – XCVII
Era pura euforia no Fale Mais Sobre Isso. Meu templo da psicanálise gratuita tinha virado arquibancada de geral na disputa Brasil x Haiti. Uma vitória que escondia a fragilidade do adversário. Quase como bater em bêbado. Se apanhasse, ficaria ainda mais constrangedor.
Eu e o doutor assistíamos àquilo em silêncio de sessão. Sem dizer uma palavra, ele observava o mundo pela ótica do seu freudismo de happy hour, arqueando as sobrancelhas e sacando o bloquinho ao menor indício de explicação para o que eu sentia.
Juvenal chegou com a bandeja voadora: chope duplo e manjubinhas crocantes.
– Meu analisado, está vendo ali naquela mesa do canto, triste como um pato que perdeu a mãe?
Olhei. Era o Laranjão.
O sujeito estava afundado na cadeira com a cara de derrotado, nas eleição, na fortuna e o no GPS da própria alma: tudo no mesmo dia.
O Laranjão era o Trump do bairro. Fez fortuna não apenas comprando imóveis de aposentadas por preços que fariam um agiota corar de vergonha e banqueiros se sentirem fracassados.
– O que houve? – perguntei. – Perdeu o cachorro Messias para a carrocinha de novo ou a guerra para o Irã?
– Nada disso – respondeu Juvenal. – Negaram o visto para ele assistir à Copa nos States. Diz que o Eduardo Bolsonaro o tinha convidado para ver um jogo da seleção norte-americana. Agora está inconformado porque vai ter de torcer daqui mesmo, com o proletariado.
– Tanto dinheiro e sem destino – comentei. – Neymar já tem a casa dele em Miami. O Vorcaro comprou duas. É o novo passaporte dos que enriqueceram aqui e só se sentem gente de verdade quando pisam em solo norte-americano.
O doutor ergueu as orelhas como um pastor alemão farejando um caso clínico.
– Veja, Juvenal. Existe um fenômeno curioso. O sujeito ganha dinheiro no Brasil, mora no Brasil, explora o Brasil, mas sonha em ser promovido a norte-americano honorário. É a floridização da alma.
– Foi assim que muito figurão comprou meia República – observou Juvenal.
– Claro. O rico quer ser aceito pelo clube imaginário dos escolhidos. Primeiro compra uma cobertura. Depois um helicóptero ou um jatinho. Depois uma casa na Flórida. Só então descobre que o vazio embarcou no mesmo voo.
– Como o Vorcaro, que faz festa para político e empresário se sentirem especiais? – perguntou Juvenal.
– Exatamente. O luxo é só a embalagem premium da insegurança.
Foi quando aconteceu.
O Laranjão levantou da mesa e veio caminhando na nossa direção com a solenidade de um vilão de novela das nove. Parou ao lado da nossa mesa. Eu me preparei para uma ameaça. Ele respirou fundo e desabou.
– Vocês viram aquele alerta de misantropia?
– O hacker? – perguntei.
– Eu acreditei.
– Acreditou em quê?
– Em tudo.
Sentou-se sem ser convidado. Pegou uma manjubinha e mastigou como quem mastiga um divórcio.
– Quando o celular apitou falando em misantropia extrema, pensei: pronto, descobriram. Achei que finalmente tinham inventado um detector oficial de gente que perdeu a fé na humanidade.
Juvenal serviu-lhe um chope.
– Misantropia, para quem faltou à aula de filosofia e compareceu à de ressentimento, é aversão à espécie humana – explicou Juvenal.
– Exatamente! – exclamou ele. – Eu já não acreditava nos brasileiros. Depois parei de acreditar nos políticos. Depois parei de acreditar nos empresários. Agora nem nos norte-americanos eu acredito mais. Negaram meu visto!
O bar inteiro pareceu silenciar. Até a TV, que exibia análises sobre a Copa, pareceu prestar atenção.
– Passei a vida querendo fugir daqui – continuou. – Comprei dólar. Comprei imóvel. Comprei tudo o que me disseram que era símbolo de sucesso. No final das contas, descobri que os norte-americanos me veem exatamente como eu vejo os brasileiros.
– E como é isso? – perguntei.
– Como alguém tentando desesperadamente ser aceito.
Juvenal assobiou baixo. O doutor tirou o bloquinho do bolso, fez uma anotação lenta, levantou os olhos e soltou sua única frase da noite, mirando o próprio Laranjão:
– A misantropia começa quando o sujeito perde a fé nos outros. Completa-se quando ele descobre que também não confia mais em si mesmo.
Silêncio.
O Laranjão terminou o chope em pé. Deixou o copo vazio sobre a nossa mesa sem agradecer. Ajustou a camisa, deu dois passos em direção à saída e parou. Virou o rosto apenas o suficiente para que ouvíssemos:
– Não contem para ninguém que eu fraquejei aqui, hein?
Sorriu de lado, aquele sorriso antigo, de quem já tinha voltado a ser quem era.
Na tela, milhões de brasileiros comemoravam uma vitória.
Ali mesmo, no país do qual ele passara a vida tentando escapar.
Foi quando percebi uma coisa.
Talvez a floridização não seja uma mudança de endereço. Talvez seja apenas a tentativa desesperada de conseguir um visto de saída da própria realidade.
E, como toda fuga mal planejada, ela costuma embarcar levando junto exatamente aquilo que o fugitivo pretendia deixar para trás: o próprio ego.
