Divã no Boteco – CI

A Copa estava acabando e eu começava a desconfiar que a humanidade também.

O Fale Mais Sobre Isso parecia uma embaixada improvisada. Bandeiras da Argentina dividiam espaço com as da Espanha. Los hermanos juravam que Messi ainda escreveria a última página da própria lenda. Los rojos apostavam que Yamal tinha chegado para inaugurar um novo século.

O Brasil já nem estava mais na Copa.

Mesmo assim, o boteco permanecia lotado.

A Copa termina.

Boteco, nunca.

João e Maria comandavam a cozinha como se a final do MasterChef premiasse uma travessa de manjubinhas frita em óleo novo da Noruega.

Juvenal cruzava o salão como um drone autônomo com diploma de garçom. Nem Mbappé fazia tanta tabela entre as mesas sem derramar um chope.

– Meu querido analisado… hoje o senhor vai precisar de espuma até na alma – disse, estacionando minha caneca exatamente diante da cadeira do Doutor.

Sentei.

O Doutor fez aquele aceno quase invisível.

Tirou do bolso o inseparável bloquinho.

Nenhuma palavra.

Só um arquejo discreto da sobrancelha.

Foi quando a Diva entrou.

O pagode parou por meio segundo.

Ela sorriu para o salão.

– I’m home.

Ninguém teve coragem de ofuscar a entrada dela.

Logo atrás apareceu Ivan.

Economista.

Estruturalista.

Nacionalista.

Pagodeiro.

Torcedor profissional.

Um sujeito tão tranquilo que o Ego dele usava chinelo e dormia em rede.

Enquanto todo mundo discutia tarifa, câmbio, Copa e eleição, Ivan apenas pediu um chope.

– O dólar pode subir, descer ou sambar. Meu chope continua indexado à felicidade.

Juvenal sorriu.

– Esse aí consegue transformar uma reunião da Cepal numa roda de pagode. Devia presidir a OMC.

Nem ouvi.

Eu estava indignado.

– Doutor… finalmente conseguiram.

Ele ergueu os olhos.

– … colocaram a psicanálise na alfândega.

Juvenal quase aposentou a bandeja.

– Como assim?

– Trump mandou Marco Rubio abrir uma investigação antidumping contra o Ego.

Algumas mesas fizeram silêncio.

Outras puxaram a cadeira.

Até Joel, o apontador do jogo do bicho, largou o lápis.

– Passei a vida inteira achando que o Ego equilibrava Id, Superego e realidade.

– Agora descubro que Freud precisava de despachante aduaneiro.

Ivan tomou um gole demorado.

– Coitado do Freud…

– Passou um século tentando explicar o Ego…

– …e bastaram cinco minutos de coletiva para transformarem a psicanálise em repartição do comércio exterior.

O bar veio abaixo.

Continuei.

– O Ego já responde pelo café.

Pela carne.

Pelo Pix.

Pelos Brics.

Se faltar luz, vão culpar o Complexo de Édipo.

Juvenal pousou outra porção de manjubinhas.

– Meu querido analisado… desse jeito o Inconsciente vai precisar de passaporte… e visto americano.

Nesse instante alguém gritou do fundo do salão:

– Saiu o vídeo do 01 na festa de Vorcaro com as astronautas ou ainda está em órbita?

O boteco inteiro mergulhou no celular.

Cinco segundos de absoluto silêncio.

– Ainda não.

Todo mundo voltou para o chope.

Hoje em dia a ansiedade chega muito antes da notícia.

Olhei novamente para o Doutor.

– Então negociar de joelhos virou diplomacia?

– E negociar em pé virou Ego?

O Doutor fechou lentamente o bloquinho.

Respirou.

Olhou para mim por cima dos óculos.

E pronunciou sua única frase da noite:

– Quem chama soberania de Ego costuma chamar submissão de bom senso.

Joel terminou o chope.

Coçou o bigode.

– Esse Rubio é uma zebra…

Juvenal recolheu os copos.

– O problema nunca foi o Ego.

– É a alfândega moral de quem cobra humildade dos outros, mas nunca declara a própria arrogância.


Uma resposta a “Freud na Guerra Comercial”

  1. […] originalmente em Divã no Boteco – CI. Enviado pelo […]

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