Divã no Boteco – CII

As bandeiras da Copa mal tinham saído do teto do Fale Mais Sobre Isso e as faixas de Lula já disputavam os mesmos ganchos. A democracia brasileira não guarda ressaca: troca a camisa amarela pelo panfleto vermelho e parte para a próxima prorrogação.

– Finalmente já podemos pedir voto abertamente – comemorou Juvenal, equilibrando uma porção de manjubinhas que João e Maria haviam frito com a precisão de um Datafolha na véspera da eleição.

Num canto, destoando da decoração, o Laranjão vestia a camisa da Argentina e usava uma motosserra de brinquedo. Ainda sem superar a derrota na Copa, celebrava a presença de Javier Milei na convenção do PL.

 – Cuidado para não cortar o próprio pescoço, disse Juvenal em referência ao aparelho que Laranjão carregava. 

Tentei me acomodar diante do Doutor, mas meu corpo rejeitava a física daquela cadeira.

Ele me observou por cima dos óculos, com o ar clínico de quem preferia examinar um surto de piolho.

– O que se passa, meu analisado? – perguntou Juvenal.

– Estou com dores.

– Onde?

– Em todo lugar. Músculos, costas, alma. Não sei se é crise renal, dor ciática ou o peso de duzentos anos de República mal construída caindo sobre minha lombar.

O Doutor arqueou a sobrancelha e sacou o indefectível bloquinho.

Conheço bem a dor física. Já enfrentei pedra no rim, apendicite e boleto vencendo em domingo de feriado. A dor física é honesta: avisa que algo pifou e pede providência. A dor moral é um deboche. Não aparece no raio-X, zomba do analgésico e se instala entre a vesícula e a cidadania.

Juvenal renovou a rodada.

– Essa dor começou quando?

– Quando assisti à convenção que oficializou Flávio Bolsonaro candidato à Presidência.

O Laranjão levantou o polegar da outra mesa. Fingi que era um mosquito e ignorei.

– Foi por causa do Milei? – perguntou Juvenal.

– Não só. Milei veio ao Brasil participar de um comício e atacar Lula, presidente do país que o recebeu. É a diplomacia de cabeça para baixo: entregaram nossa soberania para a extrema direita internacional fazer palanque. Mas o golpe final foi o avatar de Jair Bolsonaro.

O Doutor congelou a caneta no ar.

Impedido pela Justiça de fazer manifestações políticas, Jair Bolsonaro apareceu no telão por meio de uma cópia criada por inteligência artificial.

Primeiro, o vídeo avisou que aquilo não era ele, mas uma simulação. Logo depois, a simulação abriu a boca para falar exatamente como ele:

– “Estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária” – bradou o fantasma digital.

O algoritmo atacou o STF, jurou inocência e pediu apoio para o herdeiro:

– “Sangue do meu sangue, meu filho Flávio.”

Juvenal apoiou a bandeja no quadril.

– Quer dizer que o pai estava impedido de falar, mas o boneco de pixels podia fazer campanha?

– É a nova mágica da inteligência artificial: o cidadão finge obedecer à Justiça enquanto o avatar avacalha a decisão.

– Dependendo da tela – arrematou Juvenal –, o homem está calado em casa e berrando no comício.

O Doutor escondeu um sorriso atrás da mão.

– Se essa moda pega – continuei –, todo mundo vai passar a mão no Judiciário. O réu cumpre prisão domiciliar enquanto seu avatar faz campanha, ataca juiz e ainda pede uma tornozeleira virtual com Bluetooth.

Na TV, Flávio prometia honrar a família e garantia que o pai colocaria nele a faixa presidencial em janeiro. O programa de governo parecia uma certidão de nascimento: o pai escolhe o filho, o filho liberta o pai e a República paga a festa das astronautas.

Da mesa ao lado, o Laranjão deu um pulo:

– ¡Viva la libertad, carajo!

– Sente-se, Laranjão – cortou Juvenal. – A Argentina perdeu a Copa e você continua passando vergonha em dois idiomas.

O salão veio abaixo.

O Laranjão sentou-se, humilhado em espanhol.

Pela janela, vi passar um ônibus lotado e lembrei da semana de cão no transporte de São Paulo: trem pegando fogo, linhas paradas e milhares de trabalhadores mergulhados no caos.

Essa dor não ganhou telão em 4K.

Não mereceu discurso emocionado.

Não recebeu a solidariedade do populista argentino.

A convenção preferiu o sofrimento da família Bolsonaro: a dor do pai, o drama do filho e o calvário do avatar.

– Eles reconhecem a própria dor de olhos fechados – observou Juvenal. – Só não encontram empatia pela dor dos outros.

– Porque a dor deles rende poder, dinheiro, conexões com bilionários. A nossa é só atraso na linha de trem privatizada.

Uma convenção deveria discutir emprego, saúde, educação e transporte. Aquela era uma reunião de família convocada para transformar o Palácio do Planalto na sede da Cosa Nostra.

Não havia projeto de país.

Havia um plano de fuga.

Juvenal recolheu um copo vazio.

– Ou recuperamos a vergonha – concluí –, ou viramos o país da Justiça nua com a mão no bolso na esquina.

O Doutor fechou o bloquinho com um estalo seco.

Ele me olhou por cima dos óculos e disparou sua única frase:

O avatar é o álibi perfeito do narcisista: fala por ele, mente por ele e o livra de reconhecer a própria culpa.

Juvenal colocou a última travessa de manjubinhas no centro da mesa.

Crocantes, douradas e perfeitas.

Mas ninguém teve estômago para a primeira mordida.

E não é que o Laranjão, ligou a motosserra de brinquedo?

– Quem é capaz de fabricar um brinquedo deste tipo? Pensei em voz alta.


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