Divã no Boteco CVIII
Apatia.
Olhava para o Rock in Rio na TV do Fale Mais Sobre Isso e, tirando a lama, que me lembrou o Festival de Iacanga, o Woodstock brasileiro, quase nada me parecia familiar.
As músicas, frutos de uma mistura de gêneros geracional, não encontravam ressonância na minha alma.
Silêncio.
Juvenal já havia trazido duas rodadas de tulipas e acompanhado do prato com o aroma perfeito das manjubinhas que Maria acabara de fritar. Ele ficou me observando com aquele olhar reservado a clientes que ultrapassam a fronteira entre a contemplação e o coma.
– Meu analisado – disse cordialmente –, você está deixando passar da hora da sua psicanálise gratuita.
Piscou para o Doutor.
O Doutor mexeu-se na cadeira, aceitando o chiste.
– Não sou eu – respondi.
O Doutor imediatamente tirou do bolso o indefectível bloquinho.
– É ele.
Os dois me olharam.
Ninguém perguntou quem.
Continuei:
– Ele sofre de um cinismo monumental. É do tipo de paciente que sabe tanto sobre os próprios sintomas que eles passaram a morar dentro dele.
Juvenal franziu a testa.
– Você está falando de você na terceira pessoa?
– Ainda não cheguei a esse estágio, Juvenal. Falo dele. Vive proclamando independência, mas continua procurando alguém que mande nele. Tem tamanho, recursos e história para andar com as próprias pernas, mas conserva uma parte esquizofrênica que sente uma necessidade danada de receber cafuné de alguém mais forte.
– Deve ser coisa de família rica – disse Juvenal. – Passa a vida dizendo que venceu sozinho, mas nunca larga a mão da babá.
O Doutor disfarçou um sorriso.
– Ele sabe que a lei deveria valer para todos.
– E vale? – perguntou Juvenal.
– Claro que não. Mas ele exige que todos respeitem a lei.
– Ah, sim. Igualdade perante a lei. Desde que tenha sala VIP.
O Doutor anotou.
– Esse talvez seja seu principal sintoma: não admitir as contradições.
Juvenal finalmente puxou uma cadeira.
– Está ficando interessante.
– Ele condena privilégios enquanto procura os próprios. Reclama das instituições, mas corre para elas quando precisa. Diz que detesta política, mas está sempre privatizando um Projeto de Lei. Defende a transparência como princípio, mas só a usa em alguém que não gosta. Aos inimigos, a Lei.
– E depois apaga a luz? – perguntou Juvenal.
– Sim, e chama a escuridão de prudência institucional.
– Se for pobre, é escuridão mesmo – completou Juvenal. – Se for rico, é insegurança jurídica.
O Doutor levantou os olhos.
Do balcão, um bancário engasgou com o chope.
Um advogado fingiu que não ouviu.
Juvenal apontou para mim como quem acabara de matar a charada.
– Mister M!
– Quem?
– O Mister M de Mendonça. Tira o pano da caixa, mostra metade do truque e deixa todo mundo discutindo se o Moraes saiu da cartola ou se a cartola livrou o Vorcaro.
O Doutor levantou os olhos e coçou a barba. E eu continuei.
– Veja, Juvenal: as suspeitas envolvendo Moraes precisam ser investigadas. Contrato é contrato, mensagem é mensagem, autoridade pública não recebe certificado de imunidade moral porque usa toga. Mas suspeita não é sentença.
– E Mendonça?
– É justamente aí que mora o ilusionismo. O que ele tornou público produz efeitos políticos objetivos. O que não sabemos é se esses efeitos foram intenção ou consequência. Se o terno do alfaiate de luxo foi pago por Vorcaro ou não.
Juvenal coçou a cabeça.
– Então Vorcaro é o quê nessa sessão?
Peguei uma manjubinha.
– O fetiche da República.
– Credo.
– Todo mundo diz que odeia banqueiro com acesso ao poder até descobrir um banqueiro para chamar de irmão, lindão e tmj.
O Doutor voltou ao bloquinho.
Do balcão, um bancário concordou.
Um advogado discordou da concordância.
Dois estudantes começaram a discutir sobre quem discordara primeiro.
Em menos de trinta segundos, o Fale Mais Sobre Isso havia reproduzido a ideia de que por dentro toda instituição é um boteco.
– E tem mais – continuei. – O paciente desconfia de todo mundo. Do Congresso. Do Supremo. Dos empresários. Dos bancos. Dos partidos. Da imprensa. Dos políticos. Dos funcionários públicos.
– Finalmente uma personalidade equilibrada – disse Juvenal. – Desconfia de todos por igual.
– Menos de si mesmo.
O sorriso dele morreu.
O Doutor parou de escrever.
– Esse é o ponto. Ele desenvolveu uma habilidade extraordinária para encontrar a contradição dos outros e uma incapacidade quase infantil de reconhecer a própria. O erro do adversário revela caráter. O erro do aliado exige contexto.
O Doutor levantou a mão.
Silêncio.
Até Maria apareceu na porta da cozinha, secando as mãos no avental.
O Doutor guardou lentamente a caneta, fechou o bloquinho e disse:
– Seu paciente é o Brasil. E seu problema não são as contradições. Todo sujeito e toda sociedade se movem por elas. O sintoma começa quando ele apesar de conhecê-las, as naturaliza e aprende a viver dentro delas sem jamais tentar superá-las.
Juvenal arregalou os olhos.
– Ah! Então isso explica tudo.
Joel, o apontador do bicho, que acompanhava a sessão da mesa vizinha, balançou a cabeça.
– Nesse paciente eu não dou palpite. Toda vez que parece que vai dar uma coisa, dá outra e depois abre inquérito para descobrir quem acertou.
Maria colocou a travessa na mesa com força suficiente para encerrar a filosofia nacional.
– Vocês podem analisar o Brasil o quanto quiserem. Só não esqueçam que amanhã tem gente acordando cedo para trabalhar dentro dele.
Olhou para Juvenal.
– E contradição nenhuma se resolve sozinha enquanto os mesmos pagam com a conta da sobremesa dos poucos.
Na televisão, o Rock in Rio continuava misturando ritmos que eu jurava incompatíveis.
Olhei para o Doutor.
Talvez o problema fosse meu.
Ou talvez aquela mistura toda fosse justamente a única parte do Brasil que não precisa de análise.
