Divã no Boteco – CXII
Cheguei atrasado ao Fale Mais Sobre Isso.
A apuração estava no fim. A democracia, aparentemente, também precisava de prorrogação.
Cássio com Cá, aquele cliente que ornamenta um canto do bar com a discrição de uma palmeira e o temperamento de um boletim de ocorrência, estava com o celular na mão.
Juvenal, nosso maître de formação junguiana adquirida entre a chopeira e as manjubinhas, vigiava o sujeito.
– O que está pegando, Juvenal?
– Meu Analisado, não sei se Cá está eufórico com a eleição ou preparando uma denúncia contra os clientes. Ressentido desse jeito, qualquer alegria alheia vira desacato à autoridade.
Abriu caminho até a mesa do Doutor, que contemplava a espuma do chope com a serenidade de quem não precisa explicar o Brasil.
– Ressentido? – perguntei.
A palavra soou como um chamado para o Doutor que sacou o indefectível bloquinho. Talvez anotasse vingança adiada.
– Conheço o tipo – continuou Juvenal. – Classe média que subiu de elevador nos tempos de Lula e Dilma, descobriu que a prestação subia de foguete e resolveu culpar o sindicato.
– E o Cá?
– Já teve emprego, salário, carro do ano. Hoje faz bico, não consegue se aposentar e odeia quem recebe Bolsa Família. Não tem dinheiro para viajar, mas tem opinião sobre quem deveria ser deportado.
O Doutor ergueu uma sobrancelha. A outra permaneceu em sigilo profissional.
– Na minha seção eleitoral, vi gente com expressão de quem não ia escolher presidente, mas reconhecer o culpado pelas prestações atrasadas.
– É a mágoa, Analisado. A pessoa perde emprego, crédito, esperança e busca um culpado.
Na televisão, veio o resultado.
Flávio Bolsonaro, dois pontos à frente de Lula no primeiro turno.
A mesa do Laranjão, ricaço da cobertura vizinha e réplica de Trump sem controle de qualidade, explodiu.
– Fora Lula! Vamos metralhar a petralhada! – berrou Laranjinha, seu filho, que nunca trabalhou, mas defendia o fim dos direitos trabalhistas com impressionante conhecimento de causa.
A Faria Lima já comemorava o ajuste fiscal. Laranjão abriu uma garrafa de Dom Pérignon para celebrar os cortes na vida dos outros.
Os estudantes responderam:
– Brasil, resista! Família Bolsonaro é fascista!
O bar ferveu.
Cá levantou o celular.
Juvenal avançou para impedir que o Fale Mais Sobre Isso estreasse nas páginas policiais.
Mas Cá driblou o garçom e subiu na mesa.
– Atenção! Quero falar!
O silêncio caiu.
Joel abandonou a maquininha do bicho. Maria esqueceu as manjubinhas na fritadeira. Até Laranjão interrompeu o brinde.
– Quero confessar. Estou arrependido – anunciou Cá.
O Doutor parou de escrever.
– Passei anos com raiva. Do governo, dos pobres, dos estudantes. Até do vizinho que comprou carro novo. Eu não queria melhorar de vida. Queria que os outros piorassem para me sentir menos fracassado.
Juvenal segurava a bandeja como quem assiste à conversão da última cesta de três pontos.
– Meus filhos trabalham mais do que eu trabalhava. Ganham menos, pagam aluguel, devem no cartão. Eu dizia que era falta de esforço. Repetia o discurso de quem nasceu com três apartamentos e chama herança de empreendedorismo.
Laranjão ensaiou interromper.
– Deixa o homem terminar! – ordenou Juvenal.
– Perdi quase tudo. Mas, em vez de perguntar por que a vida ficou tão difícil, escolhi odiar quem ainda tinha esperança. Votei para me vingar de um passado que não voltava. E descobri que vingança não paga prestação.
Fez uma pausa.
– Quero um país em que meus filhos vivam melhor do que eu. Não um país onde precise odiar os filhos dos outros para justificar minha derrota.
– Por isso, no segundo turno, vou votar 13. Não porque esteja tudo resolvido. Mas porque não quero transformar minha frustração em projeto de governo.
O bar explodiu em aplausos.
Joel anotou alguma coisa. Provavelmente uma zebra.
Juvenal trouxe chope e manjubinhas por conta da casa. Um acontecimento mais improvável do que a conversão de Cá.
Foi quando o Doutor se levantou e bateu a colher no copo.
– O ressentimento exige que o passado pague a dívida. A consciência descobre que o futuro não pode continuar sendo cobrado por ela.
Sentou-se.
– E agora, Juvenal? O Cá virou de esquerda?
Juvenal observou o homem recebendo abraços dos estudantes.
– Não sei, Analisado. Mas parou de procurar um culpado e começou a procurar uma saída.

