Divã no Boteco — CXI

Nunca a indefinição esteve tão bem servida no Fale Mais Sobre Isso.

Não era claro ou escuro. Frita ou assada.

Era o futuro.

A uma semana da eleição, o país traçava o destino com a segurança de um bêbado atrás do banheiro.

Maria, a cozinheira, não entendia a dúvida.

– Complicam demais.

Juvenal me viu entrar e gritou do meio de uma roda de estudantes com bandeiras vermelhas:

– Bora, Analisado!

– Não me provoca, que fujo da sessão e vou.

Sentei diante do Doutor.

Minha pálpebra esquerda tremia.

Ele olhou.

A direita começou.

Ele anotou.

– Doutor, isso é ansiedade?

Silêncio.

Juvenal pousou dois chopes e as manjubinhas e disse:

– Isso é eleição.

– Passa?

– A eleição, sim.

Apontei para a mesa de Laranjão.

Laranjão, Laranjinha, advogados, empresários e homens que usavam sapatênis com a solenidade de um cargo público.

– Eu não tenho dúvida sobre mim, Juvenal. A escolha é fácil. Tenho dúvida sobre eles.

Joel, o apontador do bicho, ouviu.

– Não dá zebra.

– O problema, Joel, é que essa zebra vota e compra voto.

Na televisão, imagens de atos políticos pelo país.

Laranjão torceu a boca, resmungando.

– Tudo manipulação.

Juvenal olhou para a tela.

– Quando a multidão é sua, é povo. Quando é dos outros, é edição.

Laranjão voltou ao celular.

– E os norte-americanos? – perguntei.

Juvenal deu de ombros.

– São tão atenciosos que estão querendo ajudar a gente a escolher o presidente do Brasil.

– Que gentileza.

– Imperialismo agora vem com atendimento personalizado.

O Doutor quase sorriu.

Quase.

– Doutor, é isso que me incomoda. Gente querendo melhorar de vida escolhendo o castigo.

Juvenal levantou um dedo.

– Ressentimento.

– Só?

– Ressentimento economiza emoção. Você não precisa construir nada. Basta desejar que alguém se ferre.

O Doutor anotou.

Na televisão apareceu uma pesquisa.

Empate técnico.

Rejeição.

Margem de erro.

Um país inteiro dentro de um gráfico.

– Impressionante – eu disse. – O sujeito passa quatro anos sem fazer política, pregando que nenhum presta e, na eleição, acredita que um mentiroso salvará a pátria.

– Terceirização emocional – disse Juvenal.

Olhei para ele.

– Você anda lendo Freud?

– Não. Bula de remédio.

Minha pálpebra continuava tremendo.

– Doutor, o que me angustia é isso. A pessoa sabe o que já aconteceu, conhece o risco, experimentou o negacionismo e, mesmo assim, pensa: “vai que, se eu trocar, desta vez melhora”.

Juvenal empurrou a cachaça na minha direção.

O Doutor levantou os olhos.

Finalmente.

– Você está tentando dominar o desejo do outro – disse Juvenal, fazendo as vezes de psicanalista.

O bar pareceu baixar o volume.

– E isso dá esse tique?

O Doutor escreveu um L gigante na caderneta, bateu a mão na mesa e disse em alto e bom som:

– A angústia aumenta quando você tenta garantir aquilo que não depende de você. Precisa sustentar e irradiar a sua escolha sem transformar a incerteza deles numa catástrofe sua.

Minha pálpebra parou.

Juvenal conferiu.

– Funcionou.

Peguei o chope.

– A psicanálise?

– A cachaça mineira.

Lá fora alguém gritava:

– Faltam sete dias!

Olhei para as mesas.

Juvenal apareceu com dois pratos de manjubinha.

– Frita ou assada?

Olhei para ele.

– Finalmente uma escolha difícil.


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